Falta de respeito e de coragem

iG Minas Gerais |

Ilustração Hélvio Avelar
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Eu gosto assim: ao sair da sala de cinema, já foi logo me batendo aquela vontade de escrever e refletir sobre o filme. Mas a vontade se transformou em necessidade, em compromisso, em obrigação... “Praia do Futuro”, do diretor Karim Aïnouz e que traz Wagner Moura em um dos papéis mais intensos de sua carreira, é muito mais que toda essa polêmica desmedida que o eleva na mídia. Vamos aos fatos: desde sua estreia nacional, o filme vem recebendo os holofotes não pela bela fotografia, pelo roteiro bem-amarrado, pelas grandes atuações, pela subjeção e pelo cunho alternativo ou pela direção de Aïnouz, que traz resquícios sagrados de “Madame Satã”, “O Céu de Suely” e “Abismo Prateado”. O que tem chamado a atenção são as cenas de sexo gay entre os protagonistas. A revolta nas timelines do Facebook e do Twitter é completamente compreensível quando você se vê em 2014 tendo que lidar com inúmeros casos em que heterossexuais desavisados se levantavam de suas poltronas no cinema, no meio do filme, após “se assustarem” com as cenas de sexo grotão entre dois homens na telona.

O estopim para eu me sentir na obrigação de dar esse rumo ao texto e não ir direto à instigante sinopse do longa foi uma postagem de um paraibano no Instagram. “Senhor, tem certeza de que deseja ver esse filme?”, teria perguntado um funcionário da rede Cinépolis ao cliente, de acordo com o post. Depois disso, horrorizado, ele compartilhou uma imagem com o carimbo de “avisado” no ingresso do filme. Você consegue acreditar que isso aconteceu de verdade? Se é assim, vou começar a pedir esse carimbo para me alertarem sobre cenas de violência, mutilações, sexo explícito entre heterossexuais e uso indiscriminado de entorpecentes. É claro que a empresa iria vir a público depois e dizer que tudo não passou de um mal-entendido. Se alguém acreditar nesse blá blá blá é porque não tem idade nem para a censura inexistente de um infantil da Disney.

Na ficção da praia do Futuro, no Ceará, o exímio salva-vidas Donato (Wagner Moura) não consegue evitar o afogamento de um turista alemão. No hospital, ele conhece o amigo do afogado, Konrad (Clemens Schick), e logo se vê envolvido, resultando nas tais cenas de sexo e no total abandono de sua família, já que ele vai embora para Berlim com o amante. Os anos se passam, e o irmão mais novo de Donato, Ayrton (Jesuíta Barbosa), que, na infância, o via como um grande herói, aparece na Europa para buscar explicações por ter sido deixado pra trás tão abruptamente.

Na sessão em que eu estava, não tive tempo nem oportunidade de questionar o que estava vendo. Estava fascinado com uma produção cult, inteligente, marcante, baseada muito mais na imagem do que no diálogo, no sensorial do que no textual. É claro que, se o enredo fosse com um casal hétero, não ia dar o peso essencial e impactante para a trama – pois é a falta de coragem do protagonista gay, ao se refugiar na Alemanha, longe da verdade de sua família, que dá sentido à história. Essa é a mesma falta de coragem do homenzinho que não se peitou e não ficou na sala de cinema vendo uma cena de sexo anal, ou da senhora com cara de pavor que desceu as escadas ao som do sussurro sexual daquele antigo capitão Nascimento. Na verdade, é muito mais! É a falta de respeito e de coragem de uma sociedade atrasada inteira, que anda permitindo carimbos desrespeitosos no cinema, fazendo críticas de moda de como se portar num aeroporto ou jogando bananas em estádios de futebol. Dia após dia. Vergonha, infâmia, Brasil.

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