Artilheiro rebelde

iG Minas Gerais | Murilo Rocha |

Mineiro de Ponte Nova, José Reinaldo Lima, 57, construiu cedo seu reinado, com gols e atuações brilhantes pelo Atlético. Em 1977, aos 20 anos e já idolatrado como “Rei”, foi convocado pelo treinador Cláudio Coutinho para integrar a seleção brasileira. A missão era duplamente difícil: fazer parte de uma delegação comandada por integrantes do Exército e disputar uma Copa no ano seguinte em um país, assim como o Brasil, governado por uma feroz ditadura militar.

No embarque para o Mundial da Argentina, o principal goleador do país daquele momento, conhecido por comemorar seus gols com o braço direito estendido para o alto e o punho cerrado, em um sinal de resistência àqueles anos de chumbo, recebeu um recado ao pé do ouvido. “Menino, não mexe com política. Joga futebol e deixa a política para nós”. A mensagem foi dita ao jovem atleta pelo então presidente do país, o general Ernesto Geisel, em um gabinete do Palácio Piratini, em Porto Alegre.

Politizado, o artilheiro do Galo ignorou as ordens do general e, logo na estreia do Brasil contra a Suécia, repetiu o gesto de protesto ao fazer o primeiro gol da seleção naquele Mundial.

O jogo terminou em 1 a 1 e, mesmo tendo marcado, Reinaldo foi substituído por Roberto Dinamite nas partidas seguintes. O Brasil terminou aquela Copa em terceiro lugar, ficando fora da final pelo saldo de gols.

Essa foi a única participação do jogador em uma Copa do Mundo. Ele vestiu a camisa da seleção por 37 vezes e somou 14 gols. O último jogo com o uniforme canarinho foi na derrota por 2 a 1 para o Chile, em Santiago, em 1985.

Mágoa difícil de esquecer Extremamente habilidoso e inteligente, Reinaldo foi vítima da truculência dos adversários ao longo de sua carreira. Foram inúmeras as pancadas recebidas e também as lesões graves no joelho. Apesar do clamor da população pela sua convocação, em 1982, o técnico Telê Santana o deixou de fora do Mundial da Espanha, justamente por considerar o atleta pouco confiável do ponto de vista da condição física. Porém, para muitos, o craque foi preterido por causa das posições políticas contrárias ao regime militar. Sua trajetória no futebol foi encurtada pelas seguidas contusões, obrigando-o a deixar o esporte aos 31 anos. Hoje, Reinaldo atua como técnico de futebol.

Inspiração. O gesto de Reinaldo, foi inspirado em atletas negros dos EUA. Nas Olimpíadas de 68 (México), eles fizeram o ato em homenagem ao movimento dos Panteras Negras contra o racismo

Imbatível. Reinaldo é o maior artilheiro da história do Atlético, com 255 gols, e, na média, também persiste como o maior goleador do Brasileirão, 1,55 por jogo

Lembrança. O último gol de Reinaldo pela seleção foi em um amistoso contra a França, em 1981. O Rei marcou um dos três gols da vitória do Brasil por 3 a 1, em Paris

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