Herói por um dia que nunca termina

Tom Cruise brinca com sua obsessão repetitiva em salvar o mundo no longa

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Protagonista. Tom Cruise vive Cage, um relações públicas militar enviado ao front
Warner / Divulgação
Protagonista. Tom Cruise vive Cage, um relações públicas militar enviado ao front

Um homem acorda repetidas vezes para descobrir que está preso no mesmo dia e na mesma história, em que é o único que pode salvar o mundo. Pode parecer uma descrição dos últimos cinco filmes de Tom Cruise, mas é a premissa de “No Limite do Amanhã”, que estreia hoje. E é exatamente essa autocrítica metalinguística que faz dele um dos melhores longas recentes do ator. Assim como Cruise, um astro almofadinha com complexo de herói, o protagonista Cage é um relações públicas militar que serve de rosto para a guerra desencadeada após uma invasão alienígena, mas que nunca encarou uma batalha de verdade. Quando ele é finalmente enviado para o front, numa espécie de Dia D intergaláctico, Cage mata por acidente um alien que lhe dá o poder de “resetar” o dia toda vez que morre. A partir daí, ele passa a reviver o mesmo dia, e “No Limite do Amanhã” vira um filme do Tom Cruise tradicional. Ele não é bom o bastante, então precisa encontrar uma mulher – a militar fodona Rita Vrataski (Emily Blunt, fazendo uma mistura de Ripley inglesa com G.I, Jane) – que vai treina-lo e ajuda-lo a ser o melhor. Por melhor, leia-se encontrar o alien chefão Ômega, que controla o tempo e pode pôr um fim à guerra e ao seu “Feitiço do Tempo”. Soa ridículo – e é – com o mangá de Hiroshi Sakurazaka sendo adaptado para reforçar mais uma vez a mensagem cientóloga de que, em caso de uma invasão alienígena, todos devem fazer o que Tom Cruise mandar. Mas o frescor que o longa traz a essa fórmula vem da estrutura do videogame. Qualquer pessoa que já passou horas em busca de um chefão, chegou em uma fase impossível de passar, decidiu parar e continuar no dia seguinte, vai se identificar com o inferno de Cage. Estrutura, por sinal, é o segredo do charme de “No Limite do Amanhã”. O diretor Doug Liman (“Jogo de Poder”) brinca no início com a ideia de que a premissa pode significar uma história repetitiva. Mas à medida que o protagonista aprende a usa-la a seu favor, o mesmo acontece com o filme. A cada novo dia, Cage descobre um pouco mais do que deve fazer, e a montagem passa a se divertir com elipses que escondem do espectador até onde ele já foi e o quanto ele sabe. Isso cria um suspense em que o público se surpreende tanto quando Cage se safa inesperadamente de uma situação, quanto pela antecipação de não saber se ele já viveu aquilo antes. Além disso, cria um tom irreverente que permite ao roteiro rir de seus próprios clichês, ridicularizando uma missão literalmente impossível em que o protagonista precisa fazer um pedido absurdo ao general vivido por Brendan Gleeson; ou quando ele impede um personagem de reiniciar um enorme monólogo expositivo que já foi ouvido. Similar ao que fez em “Sr. e Sra. Smith”, Liman constrói um filme que ri com o público, e não dele. Assim como Angelina Jolie e Brad Pitt naquele longa, Tom Cruise parece se divertir na tela – mas o espectador também aproveita do lado de cá, algo que não acontecia desde “Missão Impossível: Protocolo Fantasma”. O astro não só compra a brincadeira, mas coloca seu talento a serviço de algo mais que correr, caçar briga e parecer um jovem de 30 anos num corpinho de 52. Sua transformação de um sujeito que é basicamente um picareta no início do filme para um herói salvador no final é convincente e traz no rosto as marcas de um veterano que enxerga o absurdo da guerra ao viver o mesmo dia de novo e de novo. “No Limite do Amanhã” não é um grande filme. É daquelas produções que, se você parar para pensar bem, vai ver que várias coisas não fazem muito sentido e as situações poderiam ser resolvidas de um jeito bem mais simples. Mas quem quiser desligar o cérebro e comer uma pipoca acompanhada de duas horas de diversão descompromissada não deve se arrepender. Se não funcionar, ano que vem Tom Cruise tenta de novo. E de novo. 

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