Conversa fiada

iG Minas Gerais |

Há poucos dias, sob o título “Cumprimentos a muares”, comentei aqui o falatório desenfreado do ex-Luiz, recém-chegado de uma de suas viagens de lobby, desta vez a Portugal, e falei que ele acabaria por dar “bom-dia cavalos”. Confesso que, na hora, fiquei em dúvida se usava ou não a preposição, ou seja, se devia dizer “a cavalos” ou simplesmente “cavalos”. Escrevi sem a preposição, mas o copidesque do jornal, no momento da correção, a acrescentou: bom-dia a cavalos. No dia da publicação da matéria, logo pela manhã, tive a grata surpresa de receber um telefonema de um velho e querido amigo, o Vicente, homem de letras, que foi logo perguntando: “Você sabe a origem desse ditado?” Respondi que achava que é conversar fiado. E ele: “Pode até ser, mas contam lá em minha região, o Sul de Minas, que a expressão teve origem no costume de um político demagogo que, montado a cavalo, saía pelas ruas a cumprimentar todo mundo”. Depois de conversar fiado com meu amigo, fiquei pensando que faz sentido. Até porque tenho outro amigo, ex-deputado, que procede (ou procedia) assim: saía pela manhã de carro sem capota, andando devagarinho, e, com um microfone em punho, cumprimentava até cachorro. Em minha vida, não só por causa da política, sempre procurei ser gentil e tenho como hábito cumprimentar as pessoas que conheço e também as que acho que conheço, mas nunca respondi algo sem que uma pergunta me tenha sido dirigida. Quem responde sem ter sido consultado está sujeito a entrar pelo cano. Na semana passada, dois políticos, por falarem sem ser convidados, pisaram no tomate: um, que não sei como classificar na cena política – o ex-Luiz –, aconselhando sobre a forma de deslocamento para assistir aos jogos da Copa, sugeriu que o torcedor sem metrô pegue um jegue ou siga a pé, conselho de todo dispensável. Além do mais, nem todo mundo está acostumado, como ele, a lidar com jumentos. Fiquei pensando em Rosemary, escanchada num jegue a caminho do Maracanã, e também no princípio que diz que “o homem é produto do meio”. O outro foi o candidato Aécio Neves, que, declarando ter puxado uma chincha na juventude, desaconselhou o uso da maconha, despertando conversas que ninguém imaginava. Um candidato à Presidência da República não pode cometer uma infantilidade dessas. Eu pensava que ele tivesse sido coroinha, assim como a maioria dos seus eleitores mais antigos, pelo menos aqueles que conheceram e admiravam seu avô Tristão da Cunha. Já Tancredo tinha costumes mais liberais, até mentia. Aliás, político, principalmente hoje em dia, não pode demonstrar muito compromisso com a verdade. Tanto é assim que nunca ouvi ou vi Tancredo afirmar alguma coisa enfaticamente: falava sempre em tese, como, por exemplo: “O primeiro compromisso de Minas é com a liberdade”. Falou bonito, mas e daí? Acho que o primeiro compromisso é com a verdade, não? Aécio nunca fumou maconha, eu duvido.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave