Arqueologia aos pedaços

Mostra de Cinema de Ouro Preto começa amanhã apresentando a história em pedaços da filmografia brasileira

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Incompletos. “O Rei do Samba” conta a história do Sinhô, um dos mais famosos compositores de música popular nos anos 20
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Incompletos. “O Rei do Samba” conta a história do Sinhô, um dos mais famosos compositores de música popular nos anos 20

Visitar Ouro Preto é conferir de perto um pedaço do passado e da história que permanece vivo ainda hoje. É inquestionável que não se trata de um fragmento intacto. Ele foi depredado, castigado pelo tempo, alterado pela urbanização. Mas isso não tira da cidade seu valor como registro vivo da história do país.

Quem for à nona edição da CineOP, Mostra de Cinema de Ouro Preto, que começa amanhã e vai até dia 2 na cidade, vai poder ter uma experiência similar com a história do cinema. Isso porque o curador da temática Preservação, o presidente da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), Hernani Heffner, decidiu exibir neste ano obras que nunca chegaram ao público por não se encontrarem completas ou porque seu estado de conservação é tal que não se pode mais realizar um trabalho de restauração ideal.

“Queria chamar a atenção para essas produções que são tão patrimônio quanto os filmes completos e que não são trazidas a público por medo de que ele não vá compreender seu valor”, argumenta Heffner. Assim, dois episódios da série incompleta “As Sete Maravilhas do Rio de Janeiro” – primeira incursão documental de Humberto Mauro, em 1934 – e uma versão deteriorada de “Misérias e Grandezas de São José do Rio Preto”, de 1948, serão exibidas junto com as pré-estreias de “O Poder dos Afetos”, de Helena Ignez, e “Os Pobres Diabos”, de Rosemberg Cariry.

“Por que não se pode ver uma cópia incompleta de ‘O Rei do Samba’, um antecessor da onda de biografias musicais que aflorou no cinema brasileira nos anos 2000, feito em 1952?”, questiona o curador. Para ele, o que se vê ali é um documento histórico. “E como documento histórico, merece a mesma atitude de uma obra íntegra ou completamente restaurada”, defende.

Um exemplo simbólico que Heffner encaixa nesse recorte é “Copacabana Mon Amour”, feito por Rogério Sganzerla em 1970. Após seu lançamento, o diretor remontou o filme várias vezes, inclusive com trilhas musicais diferentes. “Como um longa sem ponto final, ‘Copacabana’ é tão significativo quanto uma obra incompleta, porque foi um filme diferente para cada público que o viu”, compara.

Difusão é preservação. A inspiração para esse gesto simbólico de “tirar a história do porão” vem de um dos homenageados desta edição do CineOP. Cosme Alves Netto (1937-1996) foi um dos curador da Cinemateca do MAM-RJ por 25 anos e é até hoje um dos principais nomes da preservação audiovisual no Brasil. O documentário “Tudo por Amor ao Cinema”, que abre a mostra na noite de amanhã, é um tributo ao seu legado.

Segundo Heffner, Netto é um dos poucos nomes que se destacaram na cultura cinematográfica brasileira do século XX sem ser diretor ou ator. “Ele foi responsável por uma geração inteira de cinéfilos como curador do MAM, porque entendia que a difusão cinematográfica é um ato de preservação em si. Ela dá acesso e justifica o trabalho de preservação, dando a conhecer não só o trabalho final, mas todo o processo”, justifica o curador do CineOP.

Acima de tudo, Heffner acredita que o homenageado era capaz de ver o cinema como o instrumento histórico que ele se assume na mostra de Ouro Preto. “Ele via o cinema como um olhar histórico, resultado de uma trajetória e de uma multiplicidade de profissionais, que você apresenta de forma organizada e contextualizada”, explica.

Filho pródigo. Um dos principais legados de Cosme Alves Netto para o cinema brasileiro foi o projeto Filho Pródigo. A iniciativa promovia a prospecção de filmes nacionais perdidos e/ou esquecidos em recônditos escuros ao redor do mundo.

Foi também esse espírito que levou Heffner a checar uma história contada pelo cineasta Luiz Rosemberg Filho. “Ele vivia dizendo que tinha levado cópias de filmes perdidos dele para a França em 1972”, conta o curador.

Quando Cléber Eduardo, seu colega de curadoria na temática histórica, decidiu escolher Rosemberg, ao lado de seu montador Ricardo Miranda, como homenageado da mostra, Heffner decidiu acionar um amigo que fazia doutorado em Paris para apurar o causo.

“Ele acabou encontrando ‘Imagens’ e ‘Jardim de Espumas’ em ótimo estado de conservação em uma distribuidora chamada Jeune Cinema”, revela o curador. O primeiro filme havia participado de um festival no país, mas a descoberta de ‘Jardim’, segundo Heffner, foi uma grata surpresa.

Não só para ele, mas também para Rosemberg, que vai assistir aos filmes, pela primeira vez em 30 anos, com o público do CineOP neste fim de semana. De acordo com Heffner, as cópias estão boas e não foram exibidas mais de três vezes nos últimos 40 anos. Mas para não arriscar sua integridade, foi feito um acordo, em que os filmes serão enviados ao festival em um disco rígido para exibição digital em HD.

“São15 a 20 filmes descobertos por ano nessas situações inusitadas. É a prova de que a arqueologia do cinema vai ser uma coisa permanente na próxima década, no próximo século”, afirma Heffner. Para ele, o importante é que as pessoas que têm essas cópias em casa não joguem fora, mesmo que estejam incompletas. “Eles devem levar às instituições, que avaliarão o que merece ser preservado, nem que seja a informação de um rótulo”, sintetiza.

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