O intérprete de metáforas

Livro traz dicas sobre amor, vida, meditação, morte e espiritualidade

iG Minas Gerais | Ana Elizabeth Diniz |

Religioso.  Durval Baranowske transita por temas atuais por meio da sabedoria de grandes sábios
douglas magno
Religioso. Durval Baranowske transita por temas atuais por meio da sabedoria de grandes sábios

“Fui monge, sou herege e místico”. Nessa pontual definição de si mesmo, o padre, jornalista, teólogo, mestre em filosofia e ética, Durval Baranowske, 36, desvela o que considera ainda incipiente, o desejo de publicar uma trilogia.  

O primeiro passo já foi dado, seu sexto livro, “O Monge” acaba de ser publicado. Na obra, o monge é autor personagem que, por meio de parábolas e da interpretação de outros sábios, revela suas memórias sobre os ensinamentos recebidos de seu mestre no período de seu noviciado.

“O monge não nos convida a entrar na casa da sua sabedoria, mas nos guia até o limiar da nossa própria mente. O monge não vem de nenhum lugar, não está situado em nenhum momento histórico ou incardinado em algum mosteiro do mundo. Nem pode nos revelar nada, a não ser o que jaz, adormecido no âmago do nosso conhecimento”, diz o padre.

O livro traz cem contos com orientações para o amor, espiritualidade, educação, meditação, vida e morte. A obra não é sequencial, o que permite ao leitor a liberdade de conhecê-la aleatoriamente.

Criador e criatura se misturam. Durval já foi monge da ordem católica Premonstratense, em 1994, em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, realizando por seis anos sua vocação contemplativa.

Anos mais tarde foi ordenado padre em Uberlândia, no Triângulo mineiro, iniciando sua caminhada missionária. Hoje, leciona comunicação e ética na Academia de Polícia Militar de Minas Gerais e é capelão da Polícia Militar.

“Sou herege, cuja palavra significa diferente. As religiões têm dificuldade de lidar com o diferente e eu sou assim, aberto às novas convicções, ideias e defensor da liberdade. Por fim, sou místico, portador de um mistério, de certa forma triste, inquieto e em busca inacessível e insaciável de mim”, se apresenta o padre.

Por tudo isso, em “O Monge” o escritor trabalha o conto, a parábola, a metáfora. “O monge é um personagem que está se preparando para a vida e tem um mestre sábio que ensina aos noviços. Na Idade Média os frades franciscanos revolucionaram o modelo de ser do noviciado que passou a acontecer não mais nos mosteiros, mas na vida itinerante. Desse modo, mestre e noviços viajavam pelo mundo, vivendo situações singulares. Em cada lugar o mestre deixava um ensinamento para temas como humor, guerra, miséria, desejo, desobediência, maldade, guerra, medo, preguiça, desapego, liberdade, dinheiro e eternidade, entre outros”.

Durval lembra que o próprio Jesus tinha momentos de contemplação, mas estava no meio do povo, na sociedade. O grande monge é o recluso na cidade porque tem suficiente domínio próprio para não temer o que o rodeia. É, pois, grande monge, quem volta à sociedade humana seus esforços, quem come carne de porco e bebe vinho e se junta às mulheres, sem detrimento nenhum para a própria alma”.

Assim, nessa busca itinerante da igreja viva, o autor rememora substratos, referências, ensinamentos e os personaliza na figura do mestre que dialoga com Khalil Gibran, Anthony de Mello, Thomas Merton, Platão, Goethe, Dalai Lama, Humberto Eco e muitos outros pensadores.

“Ninguém escreve porque quer aparecer, escreve-se para se descobrir, assim eu sigo escrevendo”, afirma Durval.

Segundo ele, a filosofia do mestre “é o caminho do meio, que se coloca à margem dos extremos. O cavalo trota melhor a meia rédea. Na obra há muito de Jesus e Aristóteles. Jesus era radical e seu grande problema foi a temporalidade e, por isso, Ele se torna a religião. Aristóteles, ao contrário, tem a aceitação da morte, do corpo fisiológico. O cristianismo foi um sonho radical, uma revolução e seu seguidores aceitavam a sentença, rezavam na fogueira e davam graças a Deus”.

Em “O Monge”, o padre resgata a força da metáfora. “Ela sempre foi para o homem a manifestação solene de culto ao divino, alívio da dor, oração de amor e ação de graças. Os antigos a consideravam capaz de prerrogativas mágicas como expulsar maus espíritos, dissipar a ignorância, chamar a divindade ao lugar sagrado e davam-lhe o poder catártico de purificar e abençoar. Estava presente no culto divino dos hebreus”, diz Durval.

A jornalista Ana Elizabeth Diniz escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: anadiniz@terra.com.br

Narrativa

Espiritualidade. No livro, o mestre se vale de suas memórias do tempo de noviciado e utiliza metáforas para trazer luz à sabedoria perene presente na obra de pensadores de todos os tempos.

Definições Vida: O ser nos criou para que fôssemos melhores que o nada de onde fomos tirados. Morte: Não é o último suspiro da existência, pois não é perfeita e precisa da vida para se completar, antes e depois do seu aparecimento. Amor: Não sobrevive na desconfiança. Fé: Não é uma certeza, mas uma decisão. Deus: É o ser da vida, aquele presente na escuridão do nada, a luz. Paz: Alcançada a partir do afastamento dos extremos. Perdão: Caminho para se alcançar a paz. Honestidade: Traz felicidade. Peregrino: A essência da viagem é chegar a algum lugar. O bom peregrino é o que não sabe aonde vai, e o perfeito é o que não sabe de onde vem.

 

O Monge

Durval Baranowske

Editora A Partilha 134 páginas,

R$ 25

Pedidos: 0800 940 2255 e www.editoraapartilha.com.br 

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