Retomada de um personagem

Historiadora Cristina Corrêa de Araújo Ávila fala da importância de não se deixar de lado os estudos sobre Aleijadinho

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Obra. Com 1,70 metro de altura, “O Anjo da Amargura” é uma das principais obras de Aleijadinho e está localizado em Congonhas
marcio carvalho / divulgação
Obra. Com 1,70 metro de altura, “O Anjo da Amargura” é uma das principais obras de Aleijadinho e está localizado em Congonhas

Parte da comissão curadora, responsável pela avaliação e aprovação das atividades que compõem o Bicentenário da Morte de Aleijadinho, a pesquisadora e mestre em barroco mineiro Cristina Corrêa de Araújo Ávila é uma das principais referências acadêmicas sobre o período, além de defensora dos estudos do estilo artístico com o qual teve contato ainda criança – ela é filha de Affonso Ávila, criador da revista “Barroco”. Além de integrar a comissão, ela lança o livro trilíngue “Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho”, em co-autoria com Márcio Carvalho, durante as comemorações.

Em entrevista a O TEMPO, após a coletiva para divulgação das ações (confira a programação completa em www.otempo.com.br), Cristina falou sobre a importância da continuidade dos trabalhos acadêmicos sobre o tema.

Entrevista Como surgiu esse interesse pelo estudo do Barroco?

O Barroco para mim é uma coisa muito natural. Desde criança, tanto eu como meus irmãos convivemos com o ambiente especialmente artístico e intelectual voltado para essa área. Foi dentro desse ambiente, inclusive, que surgiu a revista “Barroco”, por iniciativa do meu pai, Affonso Ávila (1928-2012). A revista tornou-se referência do assunto desde 1967, ano que foi inaugurada. Ela tinha a preocupação de divulgar não apenas diversos estudos nacionais sobre o estilo como a de estabelecer um intercâmbio do Brasil com o exterior. Por meio dela, foram feitos vários congressos internacionais, sendo que um deles contou com a presença do German Bazán, que ainda estava vivo. Depois de vários movimentos de divulgação como esses, houve um certo acanhamento com relação tanto ao estudo do patrimônio quanto ao próprio Aleijadinho. 

Essa falta de atenção que os estudos acadêmicos do barroco têm sofrido nos últimos anos é fruto de qual motivo?

Existem as “ondas” acadêmicas, assuntos que acabam tomando conta da academia por um tempo. Até os anos 1980, havia trabalhos muitos importantes sobre o barroco e, posteriormente, houve um interesse muito grande pelo século XIX, que também era pouco explorado. Especialmente hoje vejo muita atenção e incentivo para estudos associados à arte contemporânea. E os estudos do barroco, com problemas que surgiram do próprio conjunto de pesquisadores, foram colocados de lado. Já tivemos em Belo Horizonte o Centro de Pesquisa do Barroco Mineiro, que foi interrompido por polêmicas do próprio corpo de integrantes. Além disso, acho que os últimos textos publicados têm se voltado às polêmicas da década de 1940, que questionam fatos já amplamente discutidos, como a existência e o valor das obras. Tal situação acaba afastando possíveis interessados em dar continuidade aos estudos.

Você acha que uma programação como essa contribui para revolver essa questão?

Acho que ajuda. Primeiro estamos retomando um personagem com uma carga de mitificação muito grande, assim como Shakespeare e Homero. Aleijadinho é um personagem que não pode ser deixado de lado, e essa própria mitificação criou uma história oral que a gente não pode abandonar. Uma história que vai sendo agregada pelas pessoas que estudaram e leram estudos sobre o assunto. Acredito que Aleijadinho para o Brasil, não só para Minas Gerais, é, considerando os limites do país, como um Michelangelo, da Itália.

Como você comentou, há um mito que questiona a própria existência do Aleijadinho. Isso não é mais um dúvida, certo?

Obviamente existiu Antonio Francisco Lisboa e existem vários documentos, inclusive expostos e publicados. Temos um inclusive que mostra a assinatura dele. Não há mais como negar isso. A questão que se discutia é se ele seria ou não, por exemplo, uma invenção do Estado Novo. Há comparações dele com Jesus, assim como foi feito com Tiradentes, outro de nossos heróis que a contemporaneidade tem deixado de lado, justamente porque passou por várias polêmicas.

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