Os efeitos da desordem

iG Minas Gerais |

A preocupação que mais inflama e toma conta das pessoas nos últimos tempos diz respeito às expectativas sobre se vão ou não acontecer manifestações populares durante a Copa. Nem é a Copa em si, nem é a seleção convocada por Felipão, nem o desejo de que o Brasil seja campeão. Também já saíram de cena as reações que negativaram, em meados do ano passado, a inversão das prioridades nos investimentos públicos – que privilegiaram sem medida a reforma ou construção dos estádios de futebol Brasil a fora – em detrimento de projetos estruturantes ou de maior repercussão social, como a ampliação dos serviços de saúde, educação e segurança. Nem tampouco o caos das obras de mobilidade e logística, o atraso na modernização e adequação dos aeroportos, das estradas, vias públicas e transporte de massa. Todos querem saber se ocorrerão manifestações. A expectativa é tão vaga quanto são as razões das mesmas manifestações. Como imperou nos eventos do gênero sempre o inconformismo íntimo de cada um, sem contornos bem definidos, a expectativa de agora é se ocorrerão protestos. Mas por que tanto se temem manifestações se não se sabe pelo que elas ocorreriam? Como se organizam tais eventos e em nome de que sentimentos? Está aí a questão. As manifestações do ano passado, derivadas em atos de vandalismo criminoso, em saques a lojas, em destruição de agências bancárias, prédios e equipamentos públicos, avançaram na medida do acontecido pela absoluta inércia dos governos em responder de forma pronta, eficaz e convincente aos apelos levados às ruas. O governo federal, os estaduais e muitos municipais não se apresentaram para discutir as reivindicações concretas ou apresentar suas respostas e, assim, diminuir a massa de manobra de tais movimentos, que passaram a contar em seu favor com a aderência de toda sorte de insatisfação. Juntaram-se na mesma trincheira os que entendiam não receberem do Estado a certeza de que haveriam vagas para seus filhos nas escolas. Problema efetivo de oferta de vagas não se denunciou porque esse não era a demanda concreta; mas também não se ouviu pedir um projeto de educação que viesse promover socialmente crianças e jovens. Se pediram melhores vencimentos para professores ninguém criticou a falta de atratividade do ensino fundamental vigente, a ocupação dos alunos em tempo integral, a precariedade das instalações das escolas, e Minas não é uma exceção nessas mazelas, pelo contrário. Reclama-se por saúde, mas não se apresentam os que desejam criticar a monetização que compensa com salários os agravos à saúde do trabalhador, em especial. Ninguém faz manifestações contra o trabalho insalubre, contra a poluição de processos de produção, mas luta-se pelo enquadramento de funções no rol daquelas consideradas insalubres para assim serem diferentemente remuneradas. Protestam pela insegurança quase sempre os mesmos que depredam bens públicos e privados, que engrossam o contingente dos que fazem, vendem ou facilitam o consumo de drogas, que saqueiam lojas e que se aproveitam para quebrar e assaltar caixas eletrônicos. A desordem, a impunidade, o descaso dos governos, em todos os níveis, em fazer cumprir a lei e assim ter condições morais de exigir seu cumprimento está transformando em argumento o incêndio de ônibus, a substituição da palavra pela violência. Sem instituições fortes, sem autoridade, sem o primado da lei, o que nos espera é a barbárie.

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