Entre a história e a ficção

A escritora Ana Miranda chega a Belo Horizonte onde participa do Sempre Um Papo e lança dois livros recentes

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Autora. Nascida no Ceará, Ana Miranda revisita cenários do Estado natal nos livros “Semíramis” e “O Peso da Luz – Einstein no Ceará”
Drawlio Joca
Autora. Nascida no Ceará, Ana Miranda revisita cenários do Estado natal nos livros “Semíramis” e “O Peso da Luz – Einstein no Ceará”

Ana Miranda, autora aclamada desde o título “Boca do Inferno”, com o qual ganhou o prêmio Jabuti, em 1990, na categoria romance, tem na mescla de ficção e história uma das principais características do seu trabalho. Em Belo Horizonte, onde participa nesta segunda do evento Sempre Um Papo, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes, ela conversa com o público sobre o seu processo criativo e lança dois dos seus mais recentes livros: “Semíramis” e “O Peso da Luz – Einstein no Ceará”.

Para Ana, misturar essas fronteiras é algo inerente ao trabalho do escritor, que pode costurar referências diversas, como as pinçadas de sua própria vida, das biografias dos outros, entre aquelas concebidas por meio da imaginação.

“No meu caso, além das histórias pessoais, uso a história literária brasileira e a de autores que são minha fonte linguística e meus personagens. Nos primeiros livros, eu sofria muito com o dilema da recriação de gente que existiu, se eu tinha esse direito, se eles estariam aprovando. E me inquietava demais não saber os limites entre o real e o ficcional”, conta Ana Miranda.

“Mas um dia percebi que tudo o que se escreve num romance é ficção, porque o romance é ficção, e o leitor sabe que não está lendo um tratado de história”, acrescenta.

Isso não a exime da tarefa de pesquisar bastante antes de começar um novo livro. Desde “Boca do Inferno”, em que reconstitui a Salvador, onde vivia o poeta Gregório de Matos, no final do século XVII, até “Semíramis”, no qual revisita o interior do Ceará, durante o século XVIII, e a figura de José de Alencar se faz presente, Ana dedica tempo até alcançar esses objetivos.

“Eu escrevo livros sobre livros, inventei um método de criação que me obriga a ler muito, porque é assombroso voltar ao passado viajando pelas palavras, que detonam a imaginação. Inventei esse método porque gosto muito de ler, e porque sei que nenhum livro é sozinho, todos se conectam e se devem mutuamente”, observa a escritora.

Além de empreender suas viagens literárias, Ana diz ter retornado ao Ceará, seu Estado natal, para apreender melhor a realidade de personagens que aparecem no livro, como o autor de Iracema e o Guarani e sua avó Bárbara do Crato. Personalidade importante no contexto das lutas pela independência do Brasil, Bárbara foi presa após se envolver na Guerra dos Padres, em 1817, em Pernambuco.

“Fui ao Crato diversas vezes, olhei a serra e a noite azuis, as paisagens ali e em volta. Mas o Crato hoje é outra cidade, então precisei viajar ao Crato antigo lendo livros de um viajante ou de um morador. Foram as viagens que fiz lendo os textos da época que me permitiram me transformar na narradora Iriana”, conta.

Irmã de Semíramis, descrita na narrativa como uma mulher encantadora e enigmática, é Iriana quem conduz o leitor ao cenário resumido pela autora. As duas, de acordo com ela, refletem olhares projetados de lugares e experiências distintas.

“A Semíramis poderia ser a poesia, a arte, a arte esquiva, em forma de mulher. A Iriana é a província, a Semíramis é a metrópole. Uma é terra, outra é luz. Uma é raiz, outra é pássaro. A Iriana talvez seja a realidade, e a Semíramis, o sonho”, compara a autora.

Já em “O Peso da Luz – Einstein no Ceará”, Ana recorda um episódio ocorrido em 1919 no Ceará – quando um grupo de cientistas se dirigiram a Sobral, a fim de comprovar a Teoria da Relatividade de Einstein –, para abordar e homenagear o ofício dos inventores nas mais diversas áreas.

“Interessante é que esse experimento ocorre na época da Primeira Grande Guerra. Por isso, além da grande conquista científica, que revolucionou o mundo, a comprovação foi uma espécie de vitória do espírito de cooperação contra o espírito bélico”, pontua Ana Miranda.

Programe-se

O encontro com Ana Miranda, acontece nesta segunda às 19h30, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1537, centro). Entrada franca. Ela lança “Semíramis” (Companhia das Letras, 272 págs., R$ 39,50) e “O Peso da Luz – Einstein no Ceará” (Armazém da Cultura, 252 págs., R$ 40).

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