Com a relevância em risco

Edição de 20 anos do FIT-BH investiu mais em números do que em apresentar à cidade proposições estéticas

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Fim. O grupo Galpão encerrou o FIT-BH deste ano, ontem à noite, com a peça “Os Gigantes da Montanha”
douglas magno
Fim. O grupo Galpão encerrou o FIT-BH deste ano, ontem à noite, com a peça “Os Gigantes da Montanha”

Ao fim de 20 dias, a pergunta que fica é: qual a função de um festival de teatro? Responder à luz da programação deste ano é urgente para que o Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de BH não perca a relevância conquistada em 20 anos de história. Problemas financeiros e de gestão são constantes nos últimos anos – e a dívida não paga de 2012 não pode ser esquecida. Mas há mais em jogo. A programação começou diluída; “Jamais 203” mobilizou multidão mas faltou visão política ao grupo Générik Vauper; e o espanhol “Matéria Prima” dividiu opiniões entre autoajuda ou errância existencial. Foi só na segunda metade que o público encontrou propostas mais desafiadoras, trazidas por companhias alemãs. Caso do “Hamlet” do Berliner Ensemble, em uma roupagem de loucura e violência exacerbada e tons de deboche; e de “The So-Called Outside Means Nothing to Me”, do Maxim Gorki Theatre Berlin, instigante tanto pela contundência política do texto quanto pela linguagem cênica. A programação nacional foi marcada pelas faltas. À exceção de “Cine Monstro”, texto desafiador de Daniel MacIvor sobre a crueldade humana, vertido por Enrique Diaz em uma encenação que conquista e provoca o espectador, os principais grupos e criadores dedicados ao desenvolvimento da linguagem teatral no país ficaram de fora. O amplo panorama local coloca outra questão delicada. É possível entendê-lo como valorização da produção local e qualquer crítica a isso soaria antipática. Mas é preciso olhar além. Dos 24 espetáculos de Belo Horizonte, 15 já estiveram em cartaz na Campanha de Popularização do Teatro e da Dança ou no Verão Arte Contemporânea desde 2012, e outras estrearam há até cinco anos. Isso não é empecilho, mas faz o FIT repetir mostras. O problema se agrava se a concentração em peças locais implica a diminuição das nacionais e a redução de investimento. A cidade deixa de receber a cena mais ampla das artes no país. Um festival é relevante se faz público e artistas repensarem suas práticas e inserção na sociedade, no confronto com criações alheias. É um lugar de referências e de expansão do olhar. Foi marcante neste ano a 1ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, em março, pela intensa produção de pensamento e seleção de 11 espetáculos perturbadores. Para que serviria um festival que não produz pensamento nem desloca perspectivas? O desejo de ser o maior nos faz lembrar de que a qualidade estética não pode ser menos importante do que o volume numérico, que tão bem serve às ações de marketing. Encerramento. O espetáculo “Concertos para Bebês”, da Cia. Musicalmente, de Portugal, levado ao público ontem pela manhã e também à tarde, dentro da programação do “Fitinho”, e a mais recente produção do Grupo Galpão, “Os Gigantes da Montanha”, encenado ontem à noite do estádio Baleião, puseram um ponto final no FIT-BH 2014. Paulo Lameiro, diretor artístico da Cia. Musicalmente, disse que o espetáculo, criado efetivamente para bebês, foi produzido especialmente para o festival.

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