Cabeças antenadas às mazelas jurássicas

Titãs retornam ao punk rock com disco que grita sobre racismo, desigualdade e até pedofilia

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Resgate. Em novo disco, Paulo Miklos e Tony Bellotto afinam voz rouca e guitarra pesada ao punk
francisco silva/divulgação
Resgate. Em novo disco, Paulo Miklos e Tony Bellotto afinam voz rouca e guitarra pesada ao punk

Crack, fome, miséria, pedofilia, racismo e machismo são mazelas brasileiras cantadas por cima de guitarras sujas de punk rock. De repente, Paulo Miklos dá uma gargalhada malévola antes de gritar “caralho” com a boca colada no microfone. Essa é só uma amostra de que, quase três décadas após o lançamento do clássico “Cabeça Dinossauro” (1986), os quatro titãs remanescentes de um grupo que começou com oito músicos mergulham nas próprias cabeças de dinossauro com o disco “Nheengatu” (2014).

Sem contrato com gravadoras, a banda produziu o álbum de forma independente e distribuiu pela Som Livre, em parceria inédita. As 11 novas faixas contam com a mão de Rafael Ramos, que trabalhou com a banda nos anos 80, e devolveu a personalidade agressiva e punk do início da carreira – abusando, inclusive, de palavrões nas letras, o que não acontecia desde “Titanomaquia” (1993). Nesse sentido, “Nheengatu” abandona completamente os efeitos eletrônicos sutis e as baladas pegajosas de amor de “Sacos Plásticos” (2007), último álbum dos Titãs, ainda com o baterista Charles Gavin, que saiu da grupo em 2010.

Talvez justamente pela formação enxuta, com Branco Mello nos vocais e no baixo, Paulo Miklos fazendo a guitarra base para riffs envenenados de Tony Bellotto, Sérgio Britto na voz, teclado e baixo, e Mário Fabre como baterista convidado, os Titãs expõem um disco que soa como uma reunião de amigos na garagem de casa para fazer os amplificadores pularem do chão ao som de guitarras pesadas e poesias rebeldes cantadas com raiva e ironia pontuais.

A nostalgia é tanta que Arnaldo Antunes dá o ar da graça ao assinar com Paulo Miklos a letra de “Cadáver sobre Cadáver” no disco, que também tem participação do cartunista Angeli, em “República dos Bananas”.

Mesmo com tantos sinais de saudosismo, os Titãs não são mais aquela banda experimental que cuspia raiva do “Estado Violência”, da “Polícia” e da “Igreja”, impulsionados pelos hormônios de um rock explosivo, enfim, livre da ditadura militar. É que “Nheengatu” apresenta uma banda punk madura, com melodias envolventes e letras instigantes que dão recados diretos sobre um país historicamente desigual, justamente às vésperas da Copa do Mundo no Brasil.

Logo de cara, “Fardado” (Sérgio Britto e Paulo Miklos) – que pode ser considerada uma “Polícia II” – constrói versos com gritos imperativos que marcaram os cordões de isolamento entre manifestantes e policiais nos protestos: "Você fardado / Também é explorado”. Uma das letras mais emblemáticas, “Quem São os Animais?” tem fôlego para questionar a homofobia: “Te chamam de viado / De sujo e de incapaz / Te chamam de macaco / Quem são os animais?”.

Em constante diálogo com o ouvinte, “Nheengatu” remete ao dialeto criado pelos jesuítas para tentar equivocadamente unificar o português à língua indígena. Na capa do disco, esse nome vem acompanhado de uma pintura da Torre de Babel, de Pieter Bruegel, que simboliza o fracasso da união de povos para erguer uma construção que tinha a intenção de chegar à Deus.

Faixa a faixa, “Nheengatu” é um álbum para inglês entender (não apenas ver) e para brasileiro nenhum esquecer. Assim, nasce um clássico que “não foi feito para tocar nas rádios”, como Paulo Miklos deixou claro. Que o disco domine as festas de rock, então.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave