Um brasileiro

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Hélvio
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Assisti nesta semana ao filme que Denis Curi realizou sobre o escritor Oswaldo França Júnior e antes de mais nada, ao vê-lo tão pouco lembrado, é inevitável voltar àquele conceito geral da memória curta, do quanto nos esquecemos tão rapidamente de artistas que nem há tempo tanto assim deixaram obras potentes das quais pouco se fala e se aproveita. Para ficar apenas no campo literário, que é o caso de França Júnior, morto em 1989, podem ser citados Wander Piroli, Roberto Drummond, Adão Ventura. Os livros de França Júnior há muito não são editados, o que facilita o distanciamento do autor. Felizmente a vida e a obra de França estão documentadas e disponíveis ao público na coleção Acervo de Escritores Mineiros na UFMG, com acervo doado pela família; memória enriquecida agora com o filme de Denis Curi. Fora isso, em Belo Horizonte o nome do escritor batiza uma trincheira na avenida Cândido da Silveira, no bairro Cidade Nova, uma escola municipal no bairro São Gabriel, e ele está lembrado em um canto do restaurante Dona Lucinha no bairro São Pedro, ela que era amiga do autor.

Natural do Serro, nascido em 1936, antes de se dedicar à escrita ele foi aviador da Aeronáutica e passou por outras profissões. Não por acaso, sua imersão literária foi incentivada por ninguém menos que Rubem Braga. Seu primeiro livro, “O Viúvo”, foi publicado em 1965, e dois anos depois veio “Jorge, um Brasileiro”. A obra sobre a saga de um motorista tornou-se a mais conhecida da carreira de França, virou filme dirigido por Paulo Tiago e protagonizado por Carlos Alberto Riccelli, e depois inspirou a série de televisão “Carga Pesada”, com Antônio Fagundes e Stênio Garcia. Aliás, Stênio é um dos entrevistados para o filme de Denis Curi e, em seu depoimento, diz que gostaria de ter conhecido pessoalmente França Júnior para conversar sobre essa riqueza do autor, pela forma como ele retrata o homem brasileiro na figura do motorista de caminhão que vive pelas estradas. Depois de “Jorge, um Brasileiro”, vieram muitos outros livros, como “Um Dia no Rio”, “Os Dois Irmãos”, “As Laranjas Iguais”, “Amar em Cuba”. O último foi “De Ouro e de Amazônia”, de 1989, ano em que ele faleceu em um acidente de carro, quando voltava de João Monlevade. A obra do escritor é analisada no filme por uma especialista em sua literatura, a professora Melânia Silva de Aguiar. O diretor de teatro Pedro Paulo Cava é outro que no filme dá seu testemunho com detalhes de sua convivência com França Júnior e lamenta a morte do escritor na maturidade de sua produção literária, aos 52 anos. O também escritor e jornalista Carlos Herculano Lopes manifesta no filme sua expectativa de que em breve irão surgir reedições dos livros de França Júnior, com isso despertando um novo interesse por sua obra. Que assim seja. E geralmente ocorre assim. Quando uma editora decide relançar a obra de um bom autor, revigora-se o interesse por ela. Uma síntese do inventário de Oswaldo França Júnior no Acervo de Escritores Mineiros da UMF pode ser acessada pela internet, no link https://www.ufmg.br/aem/Inventario_franca/franca_bio.htm . Ali, quando é citado o livro de contos “As Laranjas Iguais”, de 1985, há o seguinte trecho do conto “A Felicidade”, que fica como aperitivo: “Ensinaram-lhe que ali, naquele sítio, é que ele encontraria o pedaço de felicidade. E agora lá está ele: as mãos crispadas nas reentrâncias do rochedo e o corpo fustigado pelo vento. Seus olhos não saem do pedaço de felicidade. Temos certeza de que acabará soltando uma das mãos para apanhar a felicidade e aí cairá do rochedo. E nós veremos o vento levar um homem com a felicidade nas mãos.”

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