Os vencedores

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A história é escrita por quem venceu. Até porque os perdedores, quando sobrevivem, são presos, exilados, neutralizados. São riscados do mapa. Mesmo despejando uma “atômica” sobre criancinhas e mulheres, o vencedor continua herói. O adversário, invariavelmente um vilão, bárbaro e brutal desde o “De Bello Galico”, de Júlio César. Na infância fui treinado para detestar índios americanos e indígenas de qualquer continente. Não existia um filme, um seriado, um aceno positivo para eles: “Todo mal e toda crueldade a eles; todo bem e toda bondade aos colonizadores (invasores), que extinguiram populações, línguas e culturas”. Eu recebia de presente soldadinhos de plástico duro, pintados com uniforme de guapo, e indiozinhos semipelados, com ares de ruins, com machados ensanguentados, sem chifres e rabo, mas pelo resto verdadeiros diabos. Não havia escolha, não havia um amiguinho que tomasse as dores dos índios. Nas brincadeiras inspiradas pelas batalhas dos filmes, os “brancos” eram distribuídos em caixas furadas de papel, espécie de fortalezas ou de trincheiras, ainda em dobras de almofadas, dependurados em cadeiras que em comum com as árvores dos filmes tinham apenas a madeira. Os caras-vermelhas eram deixados a descoberto, lançando-se de arco e flecha, como idiotas, contra as metralhadoras. Os cenógrafos de Hollywood ditavam moda como Petrônio na época de Nero. Búfalo Bill, o general Custer, os bravos pioneiros que defendiam donzelas angelicais, as diligências varando o deserto do Texas, perseguidas por índios endiabrados que eram destroçados na vigésima quinta pela cavalaria nortista ao som de trombetas afinadíssimas, ou ainda por um John Ford que fulminava duas dúzias de primitivos por minuto. Outros tempos, quando fumar e tomar bebidas alcoólicas eram o esporte principal dos heróis. Eu sonhava em “ficar grande” para poder desfilar com uma cigarrilha no canto da boca e engolir sem piscar um copo de “grappa” pura. Mas, como demorei a “ficar grande”, comecei de menino a fumar. Depois gastei 20 anos de esforço para me livrar dos vícios de John, de Bill, de Humphrey, de Jack. Intrigado com tantos bons exemplos, passei a procurar a literatura (rara e dispersa) dos “perdedores”. Descobri assim o grande complô dos vencedores de todos os tempos. Pasmo, conferi que não existia um único filme, uma obra literária estudada nos bancos da escola que pudesse levar a sério. Tive que reconsiderar tudo o que sabia.

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