Cristãos põem tabus em pauta

Crescimento do eleitorado evangélico e católico-conservador deve impor temas delicados aos debates

iG Minas Gerais | Lucas Pavanelli |

Peso. Evangélica, Marina deve ser a maior puxadora de votos conservadores na disputa presidencial
Juliana Knobel
Peso. Evangélica, Marina deve ser a maior puxadora de votos conservadores na disputa presidencial

A atitude dos presidenciáveis de não polemizar com temas espinhosos nas campanhas eleitorais pode ter uma explicação que vem ganhando mais força a cada eleição: o crescimento do eleitorado ligado às igrejas evangélicas e do segmento mais conservador de católicos. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, os evangélicos já são um em cada cinco no Brasil.  

“Candidatos evitam se posicionar em temas polêmicos para não se indisporem com esses grupos”, afirma a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). “Eles sabem que esse não é o tema que vai dominar o debate”, pondera. Em pré-campanha, os candidatos têm seguido à risca a estratégia de não dar destaque, em seus discursos, a assuntos polêmicos.

Uma certeza comum a cientistas políticos, candidatos e lideranças religiosas é que, pelo seu tamanho, esse eleitorado “cristão” não deve ser ignorado. “O candidato que não souber ouvir e conversar com os evangélicos em 2014 estará em temerária desvantagem. E não falo apenas de temas tabus”, sintetizou o presidente do diretório municipal do PR, Léo Portela, ligado à Igreja Batista.

O crescente número de evangélicos na população brasileira é refletido na maior participação política desses grupos. Além de ganhar espaço no Legislativo, alguns representantes pretendem se lançar ao principal cargo do país. É o caso de Pastor Everaldo Pereira (PSC), que já se descola do grupo dos nanicos nas pesquisas de intenção de voto. O Instituto Datafolha, em abril, e o Ibope, em março, apuraram que 3% do eleitorado votaria no cristão. No caso do Ibope, por exemplo, o índice correspondia à metade do obtido pelo pré-candidato Eduardo Campos (PSB). Em ambas as pesquisas os demais candidatos à Presidência considerados nanicos conseguiram, no máximo 1% das intenções de voto.

Além de Pastor Everaldo, outras figuras ligadas a um eleitorado mais conservador podem aparecer nas urnas eletrônicas em outubro. Uma delas é o senador Magno Malta (PR-ES), pastor evangélico e integrante de uma banda gospel. Outro é uma figurinha carimbada nas eleições presidenciais: José Maria Eymael, fundador do Partido Social Democrata Cristão (PSDC), ligado a setores da Igreja Católica. Somado a eles, um nome de peso: a ex-ministra Marina Silva, evangélica, que será vice de Eduardo Campos na chapa do PSB.

A possível presença desses personagens na campanha eleitoral, para a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, significa que os temas-tabu podem vir mais fortes neste ano.

“Isso já era uma tendência na eleição passada, mas as questões morais e comportamentais virão mais fortes neste ano. A tendência (do candidato Pastor Everaldo) é direcionar para esses temas específicos. Isso atrai o voto evangélico, mas afasta o dos demais”, avalia.

Cristãos

Bancada. Das eleições de 2006 para 2010, a bancada evangélica cresceu cerca de 50%. Em 2006, foram 45 deputados e senadores evangélicos eleitos. Em 2010, foram 75.

Temas polêmicos causam batalhas no Legislativo

Apesar de os temas polêmicos sempre serem levados para o centro do debate presidencial, não é função primordial de um presidente tratar de alterações nas leis que ditam regras sobre assuntos como o aborto ou as drogas. O chefe do Executivo até pode elaborar um projeto de lei para enviar ao Congresso, mas esses temas são deliberados pelo Legislativo e, em alguns casos, têm sido tratados até pelo Judiciário – que determinou que cartórios celebrem casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Na Câmara dos Deputados e no Senado, os parlamentares de correntes conservadoras e liberais têm travado verdadeiras batalhas para aprovar projetos de seus interesses que dizem respeito aos temas-tabu. Em alguns casos, as propostas ganharam maioria e saíram do papel, como aconteceu com a nova Lei Antidrogas, que endurece penas para usuários pegos em flagrante. Outros projetos ainda passam por tramitação em comissões ou aguardam entrar na pauta do plenário, como é o caso da descriminalização do aborto .

 

Censo do IBGE

Como os brasileiros se distribuem nas religiões.

Católicos: 124 milhões Igreja Católica Apostólica Romana: 123 milhões

Igreja Católica Apostólica Brasileira: 560 mil

Ortodoxos: 131 mil

Evangélicos: 42 milhões

Assembleia de Deus: 12,3 milhões

Batistas: 3,7 milhões

Igreja da Congregação Cristã do Brasil: 2,2 milhões

Igreja do Evangelho Quadrangular: 1,8 milhão

Universal do Reino de Deus: 1,8 milhão

Adventistas: 1,5 milhão

Luteranos: 999 mil

Presbiterianos: 921 mil

Deus é Amor: 845 mil

Metodistas: 340 mil

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