Mudanças em órgãos oficiais levam metamorfose à produção

Os últimos anos têm revisto esses conceitos do cinema britânico

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Comédias românticas com diálogos sarcásticos estreladas por Hugh Grant ou Colin Firth. Filmes de época com belos figurinos e locações suntuosas. Houve uma época em que a cara de “filme inglês” era tão identificável e tradicional como o Chá das Cinco. Os últimos anos têm, no entanto, revisto esses conceitos. “As produtoras que faziam esse tipo de filme estão diversificando e fazendo coisas diferentes”, explica o crítico Guy Lodge, do site InContention, e colunista do jornal inglês “The Guardian”.

Em um nível mais pragmático, a transformação tem origem em uma imposição de mercado. “A maioria desses gêneros que usavam a comédia de costumes e Jane Austen como base não é mais tão comercialmente confiável como já foi”, analisa. O grande motivo, no entanto, que proporcionou o casulo para a metamorfose foi uma mudança na própria estrutura da indústria cinematográfica local.

Em 2010, o UK Film Council – uma espécie de Ancine inglesa, que financiava a maior parte dessas produções ‘mainstream’ – foi fechado. Seu papel foi transferido para o British Film Institute (BFI), que tinha um perfil mais de preservação, e tem apostado em filmes mais independentes e ousados.

Com isso, enquanto nomes como Tom Hooper (“Os Miseráveis”) e Stephen Frears (“Philomena”) ainda insistem nos figurinos pomposos e no humor inglês, Lodge acredita que a indústria local se encontra numa “era de transição”. “A verdade é que nunca houve dinheiro suficiente para construir uma indústria cinematográfica de verdade aqui. E hoje o cinema independente é mais criativo e está crescendo mais rapidamente, com sucessos inesperados como ‘Ataque ao Prédio’”, avalia, explicando por que a literatura e mesmo a música inglesa, artes bem mais baratas, são muito mais conhecidas e bem-sucedidas.

Ao lado de longas como “Monstros”, de Gareth Edwards, e “Berberian Sound Studio”, de Peter Strickland, “Ataque ao Prédio” traz uma reinterpretação mais indie e ousada do cinema de gênero produzido nos anos 1950 pela Hammer – o estúdio mais famoso da Inglaterra até hoje, responsável por clássicos como “A Maldição de Frankenstein” e “Drácula”. “É uma geração jovem e independente, no sentido de conseguir fazer filmes bons com orçamentos muitos baixos”, conta Lodge.

Mas apesar de a Inglaterra contar com um público de cinema fiel à produção local e demograficamente diverso – especialmente espectadores mais velhos, que lotam as salas do circuito de arte –, Lodge admite que o cinema indie do país enfrenta os mesmos obstáculos que no mundo inteiro. “Os blockbusters de Hollywood dominam as bilheterias”, lamenta. 

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