Verdades sem maniqueísmo

Helvécio Marins Jr. - Cineasta

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Agência curta metragem / divulgação
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De viagem marcada para Berlim, onde ficará por seis meses para residência artística do cobiçado Daad (German Academic Exchange Service), o cineasta mineiro fala abertamente sobre a importância de ter sido selecionado, as políticas públicas do Brasil para o audiovisual e ainda sobre o cenário de Minas Gerais para jovens cineastas.

Seu curta “Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar” foi selecionado para o Festival de Berlim. O que o esse prêmio significou para você?

Berlim é um dos três maiores festivais do mundo e foi como vencer um prêmio. Eu trocaria cinco prêmios no Brasil por essa seleção. Tanto “Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar” quanto seu outro curta “O Canto do Rocha” tem uma ligação com Portugal. Algum motivo específico ou história por trás disso?

O “Canto do Rocha” foi meu primeiro filme de encomenda. Em 2012 o festival de curtas da Vila do Conde, de Portugal, fez 20 anos e me convidou para fazer um trabalho. Eu teria sete dias para filmar, mas como sou muito prático, em três dias e meio eu já havia terminado. E nesse período eu fiquei pensando já na montagem de “Fernando …”, que foi feito com restos de filmagens do “Canto da Rocha”. Assim os dois acabaram tendo essa ligação com Portugal, mesmo que a ideia para o segundo tenha surgida da vontade conjunta, minha e do Felipe Bragança (co-diretor do curta), de falar sobre o Brasil, sobre as manifestações e a realização da Copa neste país repleto de problemas sociais. Um dos seus primeiros trabalhos foi o vídeo-instalação “Alma Nua”. Foi assim que se tornou cineasta e também entrou no mundo das artes plásticas?

Bem, eu virei cineasta sem querer. Eu me formei em direito, queria ser músico, mas em 1998 eu estava fazendo um workshop na PUC com o professor Paulo Pereira. Estava num grupo com mais sete pessoas e juntos deveríamos fazer um curta. Eu era o único que não queria ser o diretor, mas, depois de algumas brigas, acabei sendo. Daí o curta, por falta de grana, ficou pronto somente em 2000 e teve uma boa aceitação. Desse mesmo jeito repentino, eu entrei no mundo das artes plásticas. Aos poucos, fui vendo que curtas que fazia eram exibidos em museus e galerias de arte, teve até um galerista que comprou um deles. Esse mundo das artes plásticas tem dinheiro, então é muito bom. Foi por esse caminho que fiz “Alma Nua”, uma instalação super simples. Você foi selecionado para participar do programa de residência alemão Daad – German Academic Exchange Service. Como foi o processo de seleção?

É um processo de seleção pelo conjunto da obra em que os selecionados são contemplados com seis meses de residência artística, com liberdade total para criar e com financiamento para isso. Ao mesmo tempo, você não tem obrigação contratual em entregar nada para eles, eu não tenho que fazer um roteiro ou filme, nada. Participar de um programa como esse é importante por quê? Seria uma boa vitrine para o seu trabalho e um bom lugar para estabelecer contatos?

Eu acho que em termos de vitrine muita coisa já acontece comigo. Acho que estou bem encaminhado na carreira. Mas sempre lembro de manter o pezinho no chão e trabalhar firme, pois assim as coisas tendem a dar certo. Mas acho que a experiência na Alemanha vai ser a mais incrível no mundo, porque é um programa com muitos benefícios. que possibilita a criação sem pressão. Além disso, o Daad é uma instituição reconhecida no mundo inteiro, então há muito respeito por quem consegue passar por lá. Veja bem, além de aulas de alemão, residência e salário, os artistas têm seu trabalho financiado, ou seja, o escritor no final tem seu livro publicado, o dançarino ganha uma peça e o cineasta uma retrospectiva de sua obra completa na Cinemateca Alemã. Confesso que tenho muita expectativa por isso. Sem falar na possibilidade de o Daad investir em outros projetos. Com relação aos contatos, acho que vai ser boa a convivência com outros artistas, pois todos moram em apartamentos no mesmo prédio. E outra é que Berlim é a cidade que mais respira arte atualmente, onde as coisas acontecem. Isso sempre é bom. A Alemanha atualmente disponibiliza diversas fontes de recursos para produções cinematográficas, por meio de vários fundos setoriais. Ao contrário do Brasil, que dispõe, em sua maioria, de fundos concentrados pela Lei de Audiovisual. Qual sua opinião sobre as políticas públicas vigentes no Brasil para o mercado audiovisual?

Eu não gosto de reclamar e acho que tem muito dinheiro para o audiovisual hoje no Brasil. O grande problema é que esse dinheiro, concentrado pela Ancine, é prioritariamente destinado ao cinema comercial. Acho que é muito dinheiro para “Normais 2, 3” ou para “Xuxa e sei lá o quê”. Esses caras (responsáveis pelos filmes) não precisam de todo esse dinheiro para suas produções. Ao mesmo tempo, quem representa o Brasil em festivais importantes em Veneza, Berlim e Cannes é a gente (cineastas autorais). Esses caras não vão nunca para lá. Mas vale ressaltar que a Ancine está engatinhando para resolver isso, preparando um edital destinado exclusivamente para trabalhos autorais, o que vai ser bom, inclusive, para os jovens cineastas que vivem nesse oba-oba. Oba-oba? O que quer dizer com isso?

Na mídia, por exemplo, a velha-guarda de jornalistas, com raras exceções, escrevem mau e têm pouco espaço para escrever. Os blogueiros, apesar de terem mais espaço, em geral, também não escrevem bem. E tem muitos jovens hoje em dia que gostam muito de fazer barulho para pouca qualidade, o que para mim é um problema. O Festival de Tiradentes é um exemplo disso. Apesar do objetivo de dar espaço e suporte para jovens ser ótimo, há um oba-oba, os caras chegam lá achando que são Godard. Por falar em políticas públicas e oportunidades, qual sua avaliação do cenário de Minas Gerais para cineastas?

É uma merda. Não é toa que estou indo embora. Eu resisti, eu quis ficar, nunca quis ir embora, mas aqui é tudo muito complicado. As coisas aqui não vão para frente muitas vezes porque as pessoas estão muito preocupadas com o trabalho do outro e assim não existe união, pelo contrário. Temos um cenário ótimo e bons profissionais. Tínhamos tudo para sermos admirados, mas não somos. Mas não vou embora “de verdade” de Minas porque minha vida, meus familiares e amigos estão aqui. Sempre terei de voltar. Mas quando retornar de Berlim, com certeza não residirei mais aqui. Como diretor a maioria de seus trabalhados foi em curta-metragem. Em 2011, no entanto, você dirigiu “Girimunho”. Tem vontade de voltar a filmar outro longa?

Eu gosto de cinema, em geral. Mas confesso que adoro curta, porque tenho uma liberdade maior, um processo menos longo, menos compromisso e permite uma urgência que não há em longas-metragens. E nunca deixei de trabalhar em ideias de curtas mesmo depois de “Girimunho”. Na verdade, eu nunca aceitei a ideia que as pessoas têm que fazer curtas como cartão de visita ou para um prévia de longa. A ideia do meu último curta, por exemplo, era o de falar do Brasil atual. Imagina fazer um longa sobre isso, sem dinheiro? Não dava. Sei que vou fazer curta para o resto da minha vida, pois é um formato que tenho muito carinho.

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