As surpresas de Kafka no dia de sua morte - final

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Visionário realista, Kafka entendeu e explicou a sociedade atual com 100 anos de antecedência
Intervenção sobre foto de Kafka aos 23 anos
Visionário realista, Kafka entendeu e explicou a sociedade atual com 100 anos de antecedência

Apoiado em dois travesseiros altos de penas de ganso, o doente sua e tosse. Na mesinha de cabeceira, um prato de sopa de alcachofras. Não é uma clínica ruim, a do Dr. Hoffmann. Na verdade, é quase luxuosa. O doente delira. O doente completaria 41 anos no próximo dia três de junho, mas não chegará lá. O doente está cercado de gente: pais, irmãs, ex-noivas e Max Brod, amigo desde a juventude. NO TRIBUNAL O juiz bate repetidas vezes o martelo e grita: – Façam silêncio ou mando evacuar o recinto! Kafka ri. Recorda que a expressão é usada por todos os juízes do mundo, em suas infinitas línguas, com o mesmo sentido e quase o mesmo resultado: nenhum. Mas o riso é principalmente por causa da expressão “evacuar”, que lembra outra coisa. – Façam entrar as testemunhas – continua o juiz. TESTEMUNHAS Entram pela porta dos fundos, bamboleando, dois gansos. Aproximam-se até debaixo da mesa do juiz, que é altíssima, erguendo os bicos para cima. O juiz lê nos autos: – Os senhores são acusados de vender penas para travesseiros por preço muito superior ao do mercado. O que têm a declarar? Kafka balança a cabeça e ri. “Estou delirando”, pensa. “Ou talvez criando um conto novo.” VELÓRIO Diante do caixão de Kafka, bem vestido e bem composto – na verdade um belo defunto fresco –, seu pai e Max Brod discutem. – Não darei um único centavo a mais – esbraveja Hermann Kafka. – A companhia de seguros que pague o enterro. Afinal, ele era ou não era secretário-geral? Hein? Era ou não era? – Era, não, senhor Hermann, foi. Lembre-se da aposentadoria por invalidez no mês passado. A companhia nada tem a ver com isso. Kafka ri. “Sim, senhor, até pra me enterrar o velho cria caso.” IRMÃS Elas não choram, mas estão visivelmente angustiadas: Gabriele, ou Eli (1889-1941), Valerie, ou Valli (1890-1942) e Ottillie, ou Ottla (1892-1943). Kafka não ri. “Por que terão morrido em anos tão próximos?”. Então se lembra – com aquela capacidade de ver o futuro que só os moribundos possuem – de que morrerão em campos de concentração nazista, todas elas, uma depois da outra, judias como eram. E esqueléticas, esfarrapadas, doentes. Kafka olha com pena as irmãs. Nada pode fazer. O futuro a Deus pertence. Mas que futuro? E qual Deus? Kafka, agora, ri. NOIVAS Do outro lado da cama, suas ex-noivas, as mulheres de sua vida, as quais prometeu casamento, promessa não cumprida. Nenhum ciúme. Certamente estão conformadas ou, pelo menos, sabem que nenhuma ganhou a parada. Felice Bauer, Julie Wohryzek, Dora Diamand e Milena Josenská torcem nas mãos os lenços molhados. De vez em quando enxugam os olhos. “Coitadas”, pensa Kafka. E não ri. NO TRIBUNAL O juiz bate repetidas vezes o martelo e grita: – Façam silêncio ou mando evacuar o recinto! Façam entrar os acusados! Entram devagar, empurrados por dois policiais grandalhões, cinco homens bem vestidos, parecendo intimidados pela situação inusitada. – Os senhores são acusados de terem concedido o Prêmio Fontana de literatura a Franz Kafka, autor fantasioso e pouco elegante. O que têm a declarar? Os acusados se entreolham. Em seguida o mais velho explica, humilde: – É certo, senhor juiz, que se trata de autor fantasioso. De forma alguma esta comissão outorgaria a ele o prêmio, mas o culpado é Max Brod. Kafka ri. “De fato”, pensa, “Max sempre foi o culpado de tudo”. VELÓRIO Max Brod parece desolado. Conta e reconta as notas que Hermann Kafka lhe entregou para pagar as despesas do enterro. Pagaria ele mesmo, se pudesse, mas ainda não era famoso nem rico, o que certamente acontecerá no futuro. Kafka ri. Aprecia Max Brod. Tanto o aprecia que pediu a ele para queimar todos os seus manuscritos assim que morresse. Sabe que Max não fará isso, ele mesmo lhe disse. “Que importa?”, pensa ele. “Queime ou não queime, nenhum valor terá essa papelada, seja ou não publicada.” DR. HOFFMANN O prato de sopa de alcachofras continua na mesinha, cheio até a beirada. Ao lado dele, talheres, torradas e manteiga. O doente não tem fome. Entra o médico, gordo e careca: – E então, como vamos? Em dois ou três dias lhe darei alta e poderá levar suas noivas para casa. Mas não acha que é noiva demais para um homem só? Kafka ri. Balança a cabeça. De fato. Noiva demais. Ele próprio era como o artista da fome. Até que gostava delas. Mas não tinha apetite nenhum. E tinha medo de casar sem apetite. E então morreu, no dia três de junho de 1924, há quase 90 anos.

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