Neuroses e insatisfação

iG Minas Gerais |

Quem não for classe média, que atire a pedra, mas se tem um karma social, existencial psíquico, é nascer nesta classe. Sem dúvida, uma questão histórica, já que por milhares de anos nós dividíamos entre os nobres e pobres ou sangue-azul e servos e aí por diante. Lógico que havia algo pior que ser pobre, que era ser escravo, mas com suas extravagâncias, reis, faraós, senhores feudais e donos de terras, eram extremamente dependentes de seus súditos, servos, aldeões. Afinal estes pobres, que cercavam seus castelos, plantavam, guerreavam, construíam os castelos, pirâmides, e até Roma e Atenas, por exemplo. Da mesma forma os servos se valiam de sua proteção e influência, ainda que de forma precária e desumana. Mas, lá pelas tantas, vai surgindo uma gente, que ia de cidade em cidade, vendendo de tudo. Os exércitos romanos se profissionalizam e remuneram habilidades como curar, construir, ser artista, outras habilidades. Além da expansão dos burgos, a formação de cidades acaba por criar uma nova classe: nem nobres, nem pobres. Nem senhores, nem servos. Eram os burgueses, que, no comércio, nas construções, nas artes e ofícios, vão ganhando seu dinheiro, se alfabetizando, comprando seus títulos de nobreza, fazendo política. Judeus financistas, árabes mascates, ex-escravos habilidosos, vão desenhando uma nova classe, a média! Meu Deus, que trabalho, nestes séculos todos, entender esta tal classe média! Jamais serão os ricos nobres, nunca terão sangue azul, e isso com o tempo será uma eterna frustração, tanto que a classe média mais abastada será chata, metida, arrogante. Os “novos ricos” com suas afetações, querendo ser amigo do Rei. Fará da política sua forma de poder, de entrar nos palácios, de ser da “câmara dos comuns”, como até hoje no Reino Unido. Formará médicos, juízes, sacerdotes, mas ainda assim, gentio, ascendendo. Buscará o poder, sendo síndico do prédio, ou presidente da associação de alguma coisa, deputado, senador, líder de classe. Quer aparecer e se enrica, anda de Mercedes e usa bolsa Louis Vuitton, vestidos Saint Laurent, relógio Rolex ou qualquer ornamento que mostre (ainda que falsos ou “made in China”) aos demais o poder ridículo de ver e ser visto. Quem sabe jogador famoso, cantor de sertanejo ou funk ostentação. Quem sabe casar com um famoso, participar do BBB? Quem sabe arrumar uma boca política, conseguir um convênio amigo, mamando nas tetas do estado. Afinal, é a classe média quem faz e consome as modas, cria factoides, elege e derruba governos, calunia e trai. Compete, inveja, constrói e destrói ídolos, líderes, farsas. Reza e peca. Aplaude e vaia. Compra Hyundai em 48 meses, e não consegue pagar o IPVA. Adoece quando o vizinho aparece nas colunas sociais. Gera filhos que estudam em escolas particulares, mas não sabe educá-los. Casa e separa, quer virar funcionário público em concursos difíceis, mas não saem da casa dos pais. Quer balada e iPhone de última geração. As meninas sonham com um bom casamento, alguém rico e importante. Eles querem pegar todas e não se comprometer. Os da classe D, sonham em virar C, ter cartão de crédito e ir pro SPC. Os da classe C sonham em virar B , mandar filhos para Disney, e ascender a classe A, o auge. Casa em condomínio, carro importado, Europa nas férias. Basta ser competente, trabalhar feito um louco... ou não! Arruma esquema federal, estadual ou municipal. Uma vez classe média, sempre classe média. Perguntarão o sobrenome e nada de importante. Avô rico? Não! Tradição no ramo? Não! Nome de rua, praça, escola pública? Não. Classe média não tem história, tradição, relevo. Morreu, acabou. Por falar nisso, qual o nome do seu bisavô materno? Não sabe?! Pois talvez seu trineto não venha a saber o seu. E eu me pergunto: e daí? Pois a analogia que mais me seduz é aquela de um classe média dependurado no alto muro de um rico nobre, que em plena quarta-feira toma sol na beira da piscina portentosa. Helicóptero à disposição, empregados uniformizados. O classe média vê tudo isso, mas nunca consegue pular o muro e aproveitar o whisky 24 anos. Enquanto isso os meninos pobres da comunidade, felizes, jogam uma pelada no barro, surram os joelhos com seus skates de quinta mão. É o tal do classe média, infeliz, deprimido, eternamente insatisfeito, destila mau humor, fala mal do rico a beira da piscina, xinga os pobres felizes e relaxados sujos de barro e se recusa a descer! Passará a vida agarrado ao muro, falando mal dos outros, mudando de governo, sonhando o carro usado importado e jogando na Sena toda semana. Com certeza, nunca teremos o “padrão FIFA” e a Copa será vista na TV de plasma, comprada na Casas Bahia em 12 vezes. E viva o Brasil! Nem hexa, nem penta, apenas um falso novo-rico!

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