Os textos que fizeram história

Livro resgata caráter pioneiro de revista cinematográfica mineira

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Estopim.“Milagre em Milão” foi uma das obras neorrealistas que serviram de base para os embates políticos da época
Divulgação
Estopim.“Milagre em Milão” foi uma das obras neorrealistas que serviram de base para os embates políticos da época

Stanley Kubrick é um dos grandes mestres do cinema. Michelangelo Antonioni também. Ingmar Bergman, um gênio. Antes de se consolidar nessas verdades absolutas que nenhum crítico ou estudioso da área questiona hoje, porém, a história do cinema foi construída nos filmes e nas narrativas de homens que foram capazes de vê-la acontecer.

“A gente olha para esses nomes como se eles sempre fossem imortalizados. Mas ver como isso aconteceu no momento é quase tão impossível para nós quanto era para as primeiras pessoas que assistiram aos filmes iniciais deles naquela época e enxergaram algo mais ali”, reflete o crítico Marcelo Miranda.

Testemunhar essa “história acontecendo na escrita” por meio de registros feitos em Minas Gerais foi, para ele, o grande prazer de organizar a “Antologia: Revista de Cinema (1954-1957 / 1961-1964)”, publicada em dois volumes no início deste mês. “Você vê os filmes nascendo na letra deles, em algo que foi escrito tão perto da sua terra. É muito especial”, confessa.

Para Miranda, foi surpreendente perceber como os nomes por trás da revista – Cyro Siqueira, Jacques do Prado Brandão, Guy de Almeida, entre outros – estavam muito adiante de seu tempo. Ele revela, por exemplo, que a “Revista de Cinema” foi a primeira publicação no Brasil a destacar Stanley Kubrick. “Em um texto sobre ‘O Grande Golpe’, terceiro filme dele, eles já exaltam um novo jovem realizador norte-americano surgindo. Saber que eles não sabiam é muito estimulante”, conta.

Campo de batalha. Reconhecer um diretor promissor em seu primeiro filme pode parecer algo quase banal hoje. Mas como lembra Rafael Ciccarini, que organizou a “Antologia” com Miranda, os profissionais da “Revista” estavam escrevendo em uma era pré-IMDb e pré-Google. “Hoje você baixa, assiste e escreve já cheio de armas e referências. Não era o caso”, ressalta.

Para ele, sem o acesso fácil a produções nem a chance de rever obras antigas, a capacidade de articulação impressionante dos textos vem de algo ausente na crítica atual: críticos dotados de uma cultura geral e de uma intelectualidade acima da média. “Você pega o que eles escreveram e fica constrangido com o grau de informação, não só cinematográfica. Hoje, o cara viu tudo do Ozu, mas não é capaz de dialogar com literatura, sociologia. Eles não se limitavam ao cinema”, explica Ciccarini.

Mais do que simplesmente pensar as obras em relação a outras áreas do conhecimento, Ciccarini ressalta a consciência que os críticos tinham do que acontecia no mundo e uma total ausência do medo de ideologizar a discussão. “Tem um texto sobre ‘Milagre em Milão’, do Vittorio de Sica, que diz que o personagem voando em uma vassoura no final está indo em direção a Moscou”, ri. A colocação é melhor contextualizada por Miranda. “Eles sempre estão falando a partir do neorrealismo. É o que fazia a cabeça deles na época”, explica. A escola estilística italiana, que eclode no fim da década de 40 e chega por aqui nos anos 1950, foi o estopim que confrontou os pensadores da época sobre como se posicionar diante de um cinema de esquerda e, eventualmente, levou à criação da “Revista”. Não por acaso, o modelo para a publicação eram revistas italianas lidas pelos criadores.

Miranda conta que os filmes neorrealistas eram exibidos em Belo Horizonte no Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), reduto dos redatores da publicação. As sessões, sempre cheias, eram seguidas de debates acalorados e politizados entre críticos de esquerda e direita, que eram levados para as páginas da “Revista”, fazendo dela um campo de batalha aberto de ideologias.

“Eram discussões muito provocativas. Eles debatiam com categoria, mas selvagemente e sem pudor de destruir o argumento do outro. Era um momento muito delicado e forte da história brasileira que eles viviam através da crítica”, ele descreve, comparando com a crítica de hoje, bem mais contida e cortês.

Para transpor esse embate – mais presente na primeira fase da “Revista”, entre 1954 e 1957, que engloba 25 das 29 edições da publicação – para as páginas do livro, Miranda e Ciccarini ignoraram a ordem cronológica de publicação dos textos. Em vez disso, os dois dividiram a obra em seções temáticas em que um artigo é seguido de sua réplica e tréplica, independente da edição em que apareceram.

O segundo volume, por exemplo, conta com uma acalorada discussão sobre censura. “Começa com um artigo do padre Guido Logger, um cinéfilo de direita que tenta explicar por que a censura é necessária. É muito interessante”, comenta Miranda. O primeiro volume, por outro lado, conta com o grosso dos textos sobre o neorrealismo, o cinema de gênero – com ensaios sobre musicais, faroestes e comédia – e uma seção de mais de cem páginas sobre o “método crítico”, em que os redatores debatiam sobre o que era a crítica cinematográfica e seu exercício.

“Era um esforço de pensar a arte como algo transformador, decisivo, mobilizador de ações e paixões”, sintetiza Miranda. Ele acredita ser muito sintomático que a “Revista” não tenha se sustentado por muito tempo. “É algo bem brasileiro. Qualquer coisa que vá contra o banal aqui sofre mesmo”,afirma.

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