Desfazendo amizades

iG Minas Gerais |

A culpa não é do Zuckerberg. Antes de existir Facebook as pessoas já eram intolerantes. No lugar de utilizar comentários para tecer convicções umbiguistas, timeline como espaço para indiretas e ironias ou o inbox com aquele amigo em comum para certificar-se de que o veneno foi bem destilado, elas sempre se fizeram valer de diversas ferramentas que dariam um livro, não uma crônica. Isso também já foi feito na ótima série “Plenos Pecados”, da editora Objetiva. Peço a licença de retirar a gula e a luxúria do pacote. Os fascículos do livro virtual que andamos escrevendo estão voltados para ira, inveja, avareza, soberba e preguiça. Tenho observado a rede mais como estudo e menos como usuária – dizem que o Facebook está com os dias contados, mas não quero aqui fazer uma análise de mídia – no entanto, sempre que vou postar uma notícia mais, digamos, polêmica, penso duas vezes. Não é medo das pedras, é preguiça de ter que rebater, eventualmente, argumentos que não me convencem. Exemplos? Sou contra o racismo, a homofobia, o machismo e favorável aos direitos humanos, assim como o direito à manifestação da religiosidade de cada um, para citar um tópico recente (e, num mundo perfeito, que parassem de perseguir quem nem tem religião). Para mim são pontos sobre os quais não há um outro lado. Aliás, tem sim, histórico: o de quem oprime. Por isso, acabo também fazendo parte desse exército disposto a acionar o botão “desfazer a amizade”. E já o fiz dezenas de vezes, sem alarde. Até então esse bloqueio da vida virtual atingia 99% de ilustres desconhecidos: um músico que me adicionou para eu dar uma força sobre um show que ele faria no roteiro do jornal, um jornalista que tinha muitos amigos em comum, um ex-colega que eu só via no corredor e sequer me cumprimentava (no entanto adorava uma piadinha escrota na rede), por aí vai. A coisa andava bem sutil, até que comecei a ocultar o feed de gente com quem já bebi cerveja e/ou conheço há anos. Como na sabedoria popular, achei melhor dar um peso de ouro ao meu silêncio e não cair na tentação de um dia ir no seu mural com um “não é bem por aí”. O fato é que num boteco o bate-boca não está documentado. Ninguém tem uma linha do tempo para certificar-se de que foi ofendido. O problema da rede, do e-mail e de tudo que se documenta é que a palavra não irá brincar com o vento depois. Um jocoso “ah, mas você é meio comunista mesmo” assume formas bem diferentes. Num ano de eleição, a coisa anda fervilhando no Facebook e no Twitter. Minuto a minuto me deparo com um personal MMA na minha lista. Poderia customizar meu feed, mas adiantaria? Hoje foi uma amiga e um conhecido, ontem dois grandes amigos. Amanhã, quem será que entra no embate? Se essa onda já respingou em mim? Evidentemente. Ainda por cima respondi num clássico “dia de fúria”, porém não peguei pesado. O desgaste me chateou mais do que toda tentativa do outro de desmerecer meus argumentos. No fim, validei a minha teoria de que a crítica pela crítica morre na beira da praia, pois não tem informações confiáveis para se ancorar. Contudo não se enganem, meu caro leitor e minha cara leitora: perdemos por 1 a 1, já que o outro lado saiu com certeza de que eu não faço ideia do que seja informação confiável. Enquanto escrevia esse texto, li no Face de uma amiga que 2014 seria um ano propenso para desfazer relações, azeitando o tema de hoje. Logo me veio à memória um inventário de adjetivos pejorativos atualmente mais propagados que posts pagos. Na rede, eles servem como sujeito e objeto do que muitos chamam de consciência. No debate proposto por essa amiga, o comentário de uma desconhecida me chamou a atenção: “Se o fulano é seu amigo mesmo, ele precisa respeitar a sua opinião”. Aguardando as cenas dos próximos capítulos. Ludmila Azevedo é jornalista, pós-graduada em cinema e escreve essas e outras crônicas no ludj.blogspot.com.br. Ela divide este espaço com Jack Bianchi, Lobo Pasolini, Mariana Rodrigues e Silvana Holzmeister

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