A violência como parte da vida

Fitinho apresenta “Era Uma Vez, Grimm” e “Concerto Para Bebês”

iG Minas Gerais |

O ilustrador Rui de Oliveira desenhou telas para o espetáculo
BELIZARTE DIVULGAÇÃO
O ilustrador Rui de Oliveira desenhou telas para o espetáculo

Esconder o que há de “ruim” no mundo da criança, como se aquilo não existisse, pode ser problemático. Faz com que os pequenos sejam excluídos da construção do dia a dia e, mais grave, pode fazer com que eles se surpreendam e não saibam lidar com seus próprios instintos. Pensando nessas e noutras coisas, o Belizarte Teatro montou duas versões de “Era Uma Vez, Grimm”: uma para crianças e outra para adultos. Ambas podem ser vistas neste fim de semana, dentro da programação do Festival Internacional de Teatro (FIT-BH).

“A criança deve saber lidar com sua própria violência, seus instintos. Saber que ela existe em si. Creio que ignorar isso gera esses casos horríveis de violência extrema contra os colegas de classe, por exemplo”, alerta o ator e diretor da peça, José Mauro Brant.

Em cena, a biografia dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm se mistura à obra deles: os contos “Chapeuzinho Vermelho”, “Jupínero” e “Cinderela”. “Os contos dos irmãos Grimm eram pensados como algo que poderia ser lido por todas as idades e que aqueles assuntos deveriam ser abordados no ambiente familiar”, destaca Brant.

Os assuntos a que se refere o diretor trazem à tona características humanas “menos nobres”, como a inveja, os ciúmes e a violência. “Os irmãos Grimm dão aos personagens a possibilidade de refletir sobre suas atitudes dentro da própria história. Sem aquela moral fechada. Ou seja, a própria Chapeuzinho Vermelho, na versão deles, por exemplo, percebe que não deve conversar com estranhos e tomar cuidado por onde anda. A moral da história não vem depois, ela já está presente na trama”, diz ele.

Ao falar sobre a produção para o teatro infantil e comparar as duas versões que apresentará no FIT, o diretor acredita que o gênero tem sido relegado a uma condição de subcategoria. “A produção infantil é sempre tida como inferior. Nós mesmos ganhamos editais porque temos a versão adulta desse trabalho. A diferença, basicamente, é que na edição (Brant prefere chamar de edição, e não versão) infantil, uma das cenas mais violentas é narrada e não mostrada. Nós tivemos que colocar uma indicação para dez anos, mas eu, francamente, acho que essa peça pode ser vista por bebês de colo. Tem uma coisa que os Grimm reclamavam para si: o direito à poesia, à simbologia. Isso é muito interessante porque não precisamos pensar o teatro como algo tão óbvio, tão literal”.

Após 20 dias, o FIT chega ao seu último fim de semana e oferece outras opções para as crianças, naquilo que a coordenação chama de Fitinho. Dentre elas, “Concerto para Bebês” do grupo português Musicalmente, que é feito exclusivamente para a primeira infância. . (Gustavo Rocha)

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