Um garoto ativo e contestador de cabelos brancos

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Produção. Compositor se mantém ativo, mas longe do mercado
Associated Press
Produção. Compositor se mantém ativo, mas longe do mercado

Diabético e manco da perna esquerda, Aldir Blanc não é mais menino, mas ainda se considera o mesmo “garoto sonhador e pirado da Vila Isabel”. Em algumas palavras escritas por e-mail, ele ignora a forma coloquial do português – com “vcs” e “qdo” grafados sem pudor no texto – para falar sobre cerveja e o fim da boemia, a parceria histórica com João Bosco, sua importância para a MPB, a primeira música lançada ao lado de uma canção de Tom Jobim, e a desmotivação com o mercado fonográfico e a pirataria, que ele critica com o mesmo tom de contestação de sempre. Entrevista Quem era o Aldir Blanc de 50 anos atrás que começa a compor na zona norte do Rio, e quem é o Aldir Blanc de agora, consagrado com mais de 400 músicas e ainda morador da zona norte? Tirando os cabelos brancos e os achaques da diabete, eu sou o mesmo. Acho firmemente que o autor das letras ainda é aquele garoto sonhador e meio pirado de Vila Isabel. Penso da mesma forma quando era jovem, mas não corro pelas ruas mais porque minha perna não deixa. Como foi o primeiro contato com João Bosco? Tem uma música preferida da parceria? O primeiro encontro foi no Rio, graças ao amigo comum Pedro Lourenço (estudioso de artes e literatura), e já começamos desde aí a fazer planos. As primeiras músicas nasceram de fitas enviadas de Ouro Preto, quando o João estava passando um tempo lá. A gente se entendia. A canção “Dois pra Lá, Dois pra Cá” tem até uma história boa. Eu tinha acabado de chegar em casa de porre de uma festa, escrevi a letra para a melodia do João sem conferir as palavras na música, mas quando li no dia seguinte, todas as frases encaixavam perfeitamente bem na melodia. João marcou minha carreira principalmente pela música “Agnus Sei”, presente no disco de bolso de “O Pasquim”. No lado B tinha nossa música e no lado A, a primeira gravação de “Águas de Março”, de Tom Jobim. E a separação da parceria de vocês em 1983? Eu costumo dizer que há várias versões pro afastamento e que todas são verdadeiras. Escolham a que preferirem. O reencontro se deu porque era uma vontade do Betinho (sociólogo e irmão do cartunista Henfil, homenageado na canção “O Bêbado e o Equilibrista”) e porque a morte do amigo em comum Marco Aurélio (compositor, autor de “Pare de Me Arranhar”, entre outras). Em 2004 voltamos a nos encontrar em shows e desde então segue tudo bem. Depois que você descobriu a diabetes, o que mudou na sua vida? Mantenho a dieta básica, bebo pouco, às vezes dou uma escapada para tomar uma gelada na esquina de casa, mas evito sair porque botar o pé fora de casa significa convite para uma cervejinha. Você ainda têm escrito canções e tem algum projeto novo? Tenho orgulho de ser compositor popular, ter sido gravado por Elis, Nana Caymmi, Djavan e tantos outros. Claro que continuo compondo. Mas, quanto a projetos, as coisas andam tão difíceis que prefiro não nutrir grandes sonhos e ficar mais sossegado. Há muito mau-caratismo, pirataria, roubalheira na internet. Não quero participar desse mundo. 

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