O passado como ficção e real

Dearaqui Cia., de Florianópolis, desdobra projeto “À Distância” em “Lado A” e “Lado B”, contrapondo pontos de vista

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Dois tempos. Em “À Distância”, duas peças ocorrem em espaços diferentes e são conectadas por um sistema de videoconferência
Cristiano Prim
Dois tempos. Em “À Distância”, duas peças ocorrem em espaços diferentes e são conectadas por um sistema de videoconferência

“À Distância” proporciona uma experiência teatral incomum ao desdobrar-se em dois espetáculos – “Lado A” e “Lado B” –, apresentados de modo simultâneo e sincronizado, e que abordam a mesma história por perspectivas distintas, num exercício dramatúrgico de ampliar os sentidos da obra e permitir ao espectador escolher a qual lado (ou versão) aderir. As duas montagens serão apresentadas hoje e amanhã, às 17h30 e 19h, na Funarte MG, pelo FIT-BH.

A Dearaqui Cia. gestou o projeto de longe, quando os integrantes se dividiam entre Buenos Aires, Lyon (França) e Florianópolis, sede do grupo. Os encontros via Skype não tinham a pretensão de virar espetáculo, mas, entre conversas e cafés online, vislumbrou-se a possibilidade de fazer da distância um propulsor criativo.

“A primeira hora de ensaio fazíamos separados. Compartilhávamos os resultados postando vídeos no YouTube e nos encontrávamos por Skype. A dramaturgia se estruturou a partir desses materiais que fomos colecionando em arquivos jpeg, wmv, doc, mp3”, conta o diretor e dramaturgo André Felipe.

O processo criativo continuou quando todos os integrantes já estavam de volta a Florianópolis, mas a condição de distância geográfica contaminou a dramaturgia.

“Questões como a saudade, a ausência, a relação com as novas tecnologias e a dificuldade de comunicação emergem da própria forma da obra”, diz Felipe. A linguagem também foi contaminada pela internet, juntando referências literárias e teatrais clássicas a virais e tutoriais do YouTube.

Como tema, o grupo debruçou-se sobre a biografia dos próprios avós, no contexto da Era de Ouro da Rádio no Brasil, e o relacionou a uma noção de distância temporal e afetiva. “Os atores se colocaram no lugar dos seus avós quando tinham as suas idades. Remexeram álbuns de fotos de família, entrevistaram parentes, vestiram roupas antigas...”, conta o diretor, que aproveitará a estadia em Belo Horizonte para ministrar a oficina Como se Transforma um Texto em Hipopótamo, pelo projeto Janela de Dramaturgia.

Gerações. O contraste de gerações entre os atores e a memória dos avós trouxe uma constatação ao grupo. “Na década de 50, o passado era visto com maus olhos (guerra, escassez, atraso), enquanto o futuro era iluminado. Hoje essa relação parece se inverter. Nossa relação com o passado é comumente de nostalgia e glamurização (o antigo, o retrô, o vintage) e, se pensamos no futuro, nos vem à mente um mundo apocalíptico de mudanças climáticas e escassez de água”, compara Felipe.

As duas peças ocorrem em espaços diferentes e são conectadas por um sistema de videoconferência. São versões da mesma história: uma rádio de transmissão clandestina que, na Florianópolis dos anos 1950, anunciava transmitir uma estação do futuro.

“Lado A” é roteirizado como documentário. No Lado B, “os conflitos ganham contornos mais poéticos e menos objetivos”, diz o dramaturgo.

“Questões que discutem o real e o ficcional na cena fazem parte de uma pesquisa continuada da Dearaque Cia. desde o segundo espetáculo, ‘A Ponto de Partir’ (2007)”, diz. “O formato documental para contar uma ficção nos serviu para criar mais uma camada de sentido sobre as peças”.

Os desencaixes aparecem, uma vez que a memória e os registros são traiçoeiros. “Qual versão é mais real? Qual é mais verossimilhante? Com qual lado eu fico?”, questiona-se o diretor, colocando-se no lugar do público. “O espectador pode escolher a ordem que verá os espetáculos e são experiências completamente diferentes dependendo da ordem escolhida. Essa possibilidade o ajuda a se sentir parte da construção da dramaturgia do espetáculo e da sua experiência”.

Agenda

O quê. “À Distância – Lado A” e “À Distância – Lado B”

Quando. Sábado e Domingo (23 e 24), às 17h30 e 19h (ambas)

Onde. Galpão 3 (“Lado A”) e Galpão 4 (“Lado B”) da Funarte MG (r. Januária, 68 – Floresta)

Quanto. R$ 20 e R$ 10 (meia)

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