Cabeça erudita, canção popular

Shows de Zé Renato, João Bosco e Leila Pinheiro homenageiam o compositor, um dos principais cérebros da MPB

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

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[NORMAL_A]O compositor e cronista carioca Aldir Blanc nunca gostou muito do microfone e do palco, mas sempre prezou por estar cercado de amigos ouvindo seus versos declamados nas rodas de samba da Vila Isabel. Os anos se passaram e os cabelos brancos apareceram, mas “a cabeça mais sofisticada e popular da MPB”, como disse Ivan Lins, até hoje recebe o mesmo apreço das amizades. É nesse clima que o projeto Bom de se Ouvir, Bom de se Aldir, traz Leila Pinheiro, Zé Renato e João Bosco, irmão musical e maior parceiro do carioca, para uma série de shows no Centro Cultural Banco do Brasil, em continuação às homenagens de 50 anos de carreira do compositor, completados ano passado.

Aos 63 anos, Aldir Blanc mora até hoje na Zona Norte do Rio. Foi lá que ele teve o primeiro contato com o samba marginal no bairro Estácio, onde morou até os 6 anos, e depois na Vila Isabel, onde compôs a maioria das suas 450 músicas que ganharam voz com Elis Regina, Clara Nunes, Paulinho da Viola, Dorival Caymmi e tantos outros. Atualmente, Aldir vive no Muda, na região da Tijuca, cercado por uma biblioteca de 15 mil livros. Prefere não sair de casa com tanta frequência porque “botar o pé fora significa convite para uma cervejinha”.

Frequentador assíduo da vida boêmia na década de 70, Aldir Blanc evita beber hoje em dia, após uma diabetes diagnosticada em 2010. Ainda assim, é inevitavelmente vivo na lembrança boêmia de cantores que deram vida musical às suas letras. Entre eles, está João Bosco, principal parceiro musical, que abre os shows de homenagens neste fim de semana.

Avesso a entrevistas, o cantor nascido em Ponte Nova, na Zona da Mata, vai apresentar hoje e amanhã à noite o primeiro show da carreira dedicado ao amigo, que conheceu em 1970 no Rio de Janeiro e, durante toda a estrada musical dos dois, eles compuseram mais de 60 canções, enviadas primeiro por correspondência e depois criadas pessoalmente, no clima dos bares cariocas. A amizade é tanta que, mesmo após os dois darem um tempo na pareceria, em 1983, voltando a se relacionar 20 anos depois, Aldir Blanc considera João Bosco um irmão de música.

“Cerca de 70% de nossas composições foram letras escritas nota por nota sobre as melodias do João. É um erro achar que entrego sempre letras prontas ao compositor. Era muito além disso”, revela Aldir. O show “Compatibilidade de Gênios – Aldir Blanc e João Bosco” revisita os maiores sucessos dos dois, como “O Mestre-sala dos Mares”, “Corsário”, “Bala com Bala” e “O Bêbado e o Equilibrista”, hino contra a ditadura imortalizado na voz de Elis Regina. Da Pimentinha, aliás, que foi uma de suas principais admiradoras e elegeu Aldir Blanc como seu letrista preferido, o compositor carioca sente falta da “risada inesquecível e a extrema simplicidade”.

Quem também participa das homenagens a Aldir Blanc é Zé Renato, que regravou canções emblemáticas como “Sem Vergonha” (Aldir Blanc e Guinga) e “Kid Cavaquinho” (João Bosco e Aldir Blanc). “Lembro dele quando morava no mesmo prédio do Moacyr Luz (compositor e parceiro), e eles faziam rodas de samba na rua mesmo, em frente ao bar da dona Maria. O Aldir era sofisticado demais, tanto que ia ser médico, mas largou o curso para compor. O fato é que, com seu requinte, ele trazia o povo para perto”, diz Zé Renato.

Em seu show, a ser realizado no dia 31 de maio, “A Poesia com Muitas Notas – Aldir Blanc e Seus Ilustres Parceiros”, Zé Renato explora canções dos principais amigos do compositor carioca, como Moacyr Luz, Guinga, Cristóvão Bastos, Djavan, Paulo César Pinheiro e Silvio da Silva Junior. No repertório, “Linha de Passe”, “Caça à Raposa” e “Bala com Bala”.

Quem fecha a programação no próximo dia 7 de junho é a cantora Leila Pinheiro, com um espetáculo que passeia pelas três principais facetas de Aldir Blanc – cronista apaixonado, amor pela família e poeta/jornalista. “O Aldir era conhecido pelo lado contestador, mas tem facetas românticas maravilhosas que ele escondia, mas que são fortes em sua personalidade”, diz a cantora, que gravou o disco “Catavento e Girassol” (1996) apenas com canções de Aldir e Guinga.

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