Canta comigo, mi hermano

Duas produções cubanas chegam à cidade e traçam retratos da situação social, política e econômica de seu país

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Embate. Na peça “Fíchenla Si Pueden”, uma prostituta se vê em uma situação extrema na qual terá que tomar decisões exemplares
ARGOS TEATRO DIVULGAÇÃO
Embate. Na peça “Fíchenla Si Pueden”, uma prostituta se vê em uma situação extrema na qual terá que tomar decisões exemplares

Mercedes Sosa, de maneira quase messiânica, evocava os povos latinos a cantarem juntos em “Canción con Todos”. A chilena parecia saber que as temáticas, as mazelas e os quereres dos latinos eram parecidos. Assim, dois grupos cubanos chegam a Belo Horizonte para comprovar que – apesar da distância e do embargo sofrido pelo país desde os anos 1960 – a “língua falada” por eles vai soar como música aos nosso ouvidos.

“Rapsodia Para El Mulo” e “Fíchenla Si Pueden” se apresentam neste fim de semana de despedida do festival. “Creio que o teatro latino se una pela precariedade de seus recursos e pela riqueza que se consegue resultar dela”, filosofa o diretor Carlos Celdrán, integrante do grupo Argos, que apresenta “Fíchenla Si Pueden”.

Ambos os trabalhos trazem em si uma discussão e retratos da realidade vivida na Ilha. “Rapsodia Para El Mulo” foi buscar no poema homônimo de José Lezama Lima, escrito nos anos 1940, antes da revolução da Baía do Porcos, a inspiração para falar de pessoas que vivem na rua. “A personagem passa a vida catando lixo na rua e vai tecendo uma colcha de retalhos. A rua é um campo de batalha. A problemática econômica de Cuba e a sobrevivência fazem com que essas pessoas se assemelhem a animais, muitas vezes”, destaca Nelda Castillo, diretora da peça e integrante do grupo El Ciervo Encantado.

Apesar de temática tão arraigada e localizada em seu país, a diretora crê que o público poderá se identificar facilmente. “O próprio Lezama Lima dizia que cada um de nós traz em si um pouco de ‘mulo’ (cavalo) e passa a vida carregando coisas, metade homem, metade animal. É uma temática universal. A própria Mercedes Sosa já diria que quanto mais para dentro você olha, mais universal você poderá ser”, assegura Castillo.

“Fíchenla Si Pueden” – que ao pé da letra, seria “prendam-na se puderem” – vai discutir os interesses e a ética, principalmente, individuais em conflito com interesses “maiores” coletivos. O coletivo Argos Teatro foi buscar no livro “A Prostituta Respeitosa” de Jean-Paul Sartre, a inspiração para seu trabalho. “Temos dois interesses em nosso grupo: tratar temáticas, problemas cubanos e montar textos de autores importantes, clássicos”, relata Celdrán.

O casamento entre os dois interesses foi justamente “cubanizar” a obra de Sartre para aproximá-la do grupo e do público. “Fizemos uma versão cubana, localizada na Ilha, com uma prostituta cubana que cede à pressão policial para acusar um inocente”, relata o diretor.

Em uma prostituta – de quem, socialmente, não se espera virtudes nobres – vem a contradição (apontada por Bertolt Brecht nas primeiras décadas do século XX): em vez de jogar o corrupto, ela toma decisões exemplares, pautada por uma ética individual.

“A peça vai revelar uma série de preconceitos e embates individuais. O racismo, por exemplo. Vai também colocar o indivíduo no centro da ação. Isso faz a gente pensar socialmente no país que vivemos e a relação de cada um com o poder”, destaca Celdrán.

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Quando as atrizes do espetáculo “Es sagt mir nichts, das sogenannte Draußen” invadem o palco, com as luzes de plateia ainda acessas, não parece que a função já tenha “começado”, mas com o tempo (como as luzes não se apagam), a linguagem direta, verborrágica (em alemão!) cai no gosto do público.

O texto de Sibylle Berg – um dos trunfos da peça – é um grande mosaico de narrativas sobrepostas e ganha vida com a atuação segura das quatro bem-humoradas e jovens atrizes do elenco. Em cena, elas expõem as inseguranças de jovens mulheres que filosofam sobre o mundo e não pretendem sair de casa, porque “o dito mundo lá fora não lhes interessa”. Quase sem nenhum cenário e com iluminação básica, a peça se centra no jogo das quatro atrizes que dão conta de manter a atenção do público, apesar da distância entre o português (das legendas) e o alemão (falado por elas). Para tanto, valem onomatopeias, algumas palavras jocosamente faladas em português e várias referências à música pop, todas cantadas pelas atrizes, sem trilha gravada. (GR)

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