Uma Copa no meio do caminho

iG Minas Gerais |

acir galvao
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É um espanto, mas a exatos 20 dias do Mundial, ainda tem quem acredite – e espalhe por aí – que um evento desse tamanho, anunciado há sete anos, que já coleciona tanta tralha antes mesmo de começar corre mesmo o risco de não acontecer. Está sendo mais custoso (em todos os sentidos) que o imaginado ou que o prometido, mas vamos conter a fantasia. Vai ter Copa e é bom se acostumar com a ideia. O que não vai ter é uma exibição convincente de capacidade de planejamento e de realização, de boa infraestrutura nos mais diferentes setores, de organização e de senso de prioridade. Vai ter Copa e vai ter churrasco e vai ter folga no trabalho e vai ter seleção jogando bonito e vai ter festinha na casa do vizinho e vai ter alegria na rua e vai ter buzinaço e vai ter fogos enlouquecendo a cachorrada. O que não vai ter é jeito de postar, de dentro do estádio, aquele selfie esperto com o gringo camarada. Nem qualquer maneira de manter os amigos superinformados com suas mensagens instantâneas via WhatsApp, enquanto assiste ao empolgante duelo entre Bélgica e Argélia na belezura que ficou o Mineirão. Vai ter Copa e vai ter gol de Neymar, de Messi, de Ribery e de Cristiano Ronaldo (eu só conheço os óbvios). Vai ter confronto entre seleções que, juntas, já conquistaram seis Copas, caso de Itália e Uruguai. Vai ter show da torcida e muitas candidatas a musa da Brazuca. Vai ter parada de celebridade e de visitas para nos encher de vaidade. O que não vai ter é aeroporto tinindo de novo, com esteiras suficientes para a quantidade de bagagens, pistas suficientes para a quantidade de aviões, conforto suficiente para a quantidade de gente nas salas de embarque e desembarque. Vai ter Copa e vai ter uma turma boa espalhando com perfeição nossa hospitalidade e fazendo valer toda a fama de reino da simpatia. Mas vai ter também um desfile bonito de nossa incapacidade crônica de se cumprir prazos, de nosso vangloriado improviso e do nosso charmoso jeitinho, tudo bem na medida para que se confirmem todos os estereótipos verde-e-amarelos. Vai ter Copa e vai ter pagode sem carimbo da Fifa (sabe de nada, inocente!). Vai ter quem ganhe uma grana compartilhando o espaço particular. Vai ter quem ganhe muita grana acertando no alvo. Vai ter quem ganhe o justo por encarar a oportunidade da labuta. O que não vai ter é a babaquice que é chegar de metrô aonde os jogos vão rolar. Nem estradas seguras para correr para uma cidade-sede ou fugir de outra. Nem trem-bala fazendo a ponte aérea Rio-São Paulo parecer uma extravagância. Vai ter Copa e vai ter camarote estrelado, fan fest com telão e canja pop, cerveja na arquibancada e na área vip. O que não vai ter são 32 mil pessoas com deficiência conferindo as partidas na faixa. Vai ter Copa e já tem estádio reformado colocando arraial no calendário das atrações inernacionais. O que não vai ter é explicação para os mais de R$ 8,5 bilhões que saíram dos cofres públicos para bancar apenas as obras das arenas. Vai ter Copa e vai ter também um perigoso clima de violência verbal alimentando qualquer debate, aprofundando ainda mais o fosso que separa pensamentos neste país. Vai ter Copa e vai ter protesto de um quero mais compreensível e justificável. Vai ter Copa, mas vai ser meio assim, no meio do caminho.

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