No meio do protesto

iG Minas Gerais |

O nome desse jovem é comum: José da Silva. O apelido é Zé. Deve ter homônimos pelo Brasil afora. Aos 23, já tem filha e mulher para sustentar. Trabalha na construção civil. Não ganha bem. Ainda não pôde comprar um carro. Usa o transporte coletivo para se deslocar de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Nesta semana, enquanto pensava em como melhorar a vida, olhava pela janela do ônibus as filas de carros ao longo da avenida. Engarrafamento. A expectativa sobre o futuro era semelhante à de chegar em casa a tempo de ver a menina acordada. Ou seja, quase nenhuma. O Zé estava ali, parado, por causa de um protesto, que fechava o trânsito na avenida do Contorno. Manifestação contra o aumento da passagem de ônibus. O rapaz concorda com a causa, e como concorda. No ano passado, chegou a participar de um protesto. Na época, sentiu-se motivado por exercer sua cidadania. Mas, na terça-feira, estava cansado, preocupado com as contas a pagar. Queria simplesmente seguir seu caminho... O objetivo da Geovanna também era chegar ao seu destino. No entanto, ela também estava parada no trânsito fechado pelos manifestantes, na mesma avenida. A faixa etária da moça é bem próxima à do Zé. O sobrenome dela é italiano. Mora em bairro nobre e dirige um carro de marca francesa e com ar-condicionado. É universitária. Vive com os pais e duas irmãs. Assim como o rapaz, já participou de manifestações. Saiu às ruas com colegas de faculdade. É politizada e acredita que protestos são mecanismos capazes de dar voz à população. Talvez, sem saber, até tenha caminhado ao lado do Zé por avenidas de Belo Horizonte. Só que na última terça se sentiu uma pessoa egoísta. Tinha prova no dia seguinte e precisava estudar. Além disso, estava com fome. Queria sair do trânsito caótico e chegar em casa. Apenas isso, sem política, sem posicionamento. Geovanna e Zé não se conhecem. Eles têm vidas diferentes e pensamentos comuns. Adoram futebol e vão torcer pela seleção brasileira, mesmo com tanta polêmica em torno da Copa e com a preferência de que o Mundial não fosse no Brasil. Ela vai poder ir ao estádio: conseguiu ingresso para dois jogos. Ele nem cogitou a presença por causa do valor da entrada. A universitária é viajada, pôde acompanhar a situação crítica no aeroporto de Confins. Ele nem passou por perto, mas ouviu, sim, o patrão falar. Também viu matérias sobre o assunto na televisão. O trabalhador da construção civil acha que os protestos contra a Copa até podem acontecer, desde que não sejam violentos. E, nesse caso, não os vê com bons olhos: “Não há nada o que fazer, a Copa vai acontecer com ou sem protesto. Tinham que parar Brasília, dificultar a vida dos políticos envolvidos na gastança”. Ele não tem partido preferencial nem imagina em quem vai votar nas eleições. Se pudesse, nem votava. Ela já tem uma ala política, quer votar, gosta de discutir o assunto e defender o fim da corrupção. Acha que os protestos serão menores e mais amenos durante o Mundial. Geovanna teme pela imagem do país no exterior. Acha que o Brasil não está preparado para receber turistas estrangeiros. Ela tem medo da violência: assaltos, roubos e homicídios. Na multidão de brasileiros em que a Geovanna e o Zé estão inseridos, há muitas misturas: rico, pobre, estudado ou não, feliz, triste, desacreditado, confiante... E, no meio desse povo todo, muitos e diferentes motivos para protestar. Há quem defenda causas justas, quem se aproveita das alheias, quem busca só tumulto, quem briga por coisas fúteis, quem só aparece virtualmente e quem protesta por protestar. Tanta gente clamando, e tão poucos para escutar. O brasileiro vai ter Copa, mas acho que está mais preocupado mesmo em ter esperança. Quer acreditar.

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