A desigualdade que é produzida pelo 1% de abastados no mundo

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Está causando furor, entre leitores e economistas, e pânico, principalmente entre os muito ricos, um livro de investigação cobrindo 250 anos de história, escrito por um dos mais jovens e brilhantes economistas franceses, Thomas Piketty. O livro se intitula “O Capital no Século XXI” (Seuil, Paris, 2013). Ele aborda fundamentalmente a relação de desigualdade social produzida por heranças, rendas e pelo processo de acumulação capitalista, tendo como material de análise particularmente a Europa e os Estados Unidos. A tese de base que sustenta é: a desigualdade não é acidental, mas é o traço característico do capitalismo. Se a desigualdade persistir e aumentar, a ordem democrática estará fortemente ameaçada. Essa tese, sempre sustentada pelos melhores analistas sociais e repetida muitas vezes pelo autor destas linhas, se confirma: democracia e capitalismo não convivem. E se ela se instaura dentro da ordem capitalista, assume formas distorcidas e até traços de força. Onde ela entra, estabelece imediatamente relações de desigualdade que, no dialeto da ética, significa relações de exploração e de injustiça. A democracia tem por pressuposto básico a igualdade de direitos dos cidadãos e o combate aos privilégios. Quando a desigualdade é ferida, abre-se espaço para o conflito de classes, a criação de elites, a subordinação de grupos inteiros e a corrupção – fenômenos visíveis em nossas democracias de baixíssima intensidade. Piketty vê nos EUA e na Grã-Bretanha, onde o capitalismo é triunfante, os países mais desiguais, o que é atestado também por um dos maiores especialistas em desigualdade, Richard Wilkinson. Nos EUA, executivos ganham 331 vezes mais que um trabalhador médio. O discurso ideológico aventado por esses plutocratas é que tal riqueza é fruto de ativos, de heranças e da meritocracia; as fortunas são conquistas merecidas, como recompensa pelos bons serviços prestados. Ofendem-se quando são apontados como o 1% de ricos contra os 99% dos demais cidadãos, pois se imaginam os grandes geradores de emprego. Como é possível estabelecer relações mínimas de equidade, de participação, de cooperação e de democracia real quando se revelam essas excrescências humanas que se fazem surdas aos gritos que sobem da Terra e cegas sobre as chagas de milhões de cossemelhantes? Voltemos à situação da desigualdade no Brasil. Orienta-nos o nosso melhor especialista na área, Márcio Pochmann: 20 mil famílias vivem da aplicação de suas riquezas no circuito da “financeirização”; portanto, ganham por meio da especulação. Continua Pochmann: os 10% mais ricos da população impõem, historicamente, a ditadura da concentração, pois chegam a responder por quase 75% de toda riqueza nacional. Enquanto os 90% mais pobres ficam com apenas 25%” (“Le Monde Diplomatique”, outubro de 2007). Segundo dados de organismos econômicos da ONU, em 2005 o Brasil era o oitavo país mais desigual do mundo. Mas graças às políticas sociais dos últimos dois governos, diga-se honrosamente, o índice de Geni (que mede as desigualdades) passou de 0,58 para 0,52. Em outras palavras, a desigualdade, que continua enorme, caiu 17%. Piketty não vê caminho mais curto para diminuir as desigualdades do que a severa intervenção do Estado e da taxação progressiva da riqueza até 80%, o que apavora os super-ricos. Sábias são as palavras de Eric Hobsbawn: “O objetivo da economia não é o ganho, mas sim o bem-estar de toda a população; o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, mas um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas”. E, como um “grand finale”, a frase de Robert F. Kennedy: “O PIB inclui tudo, exceto o que faz a vida valer a pena”.

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