Página exibe o preconceito aberto contra as domésticas

Perfil no Twitter, criado para denunciar posts que inferiorizam as trabalhadoras, atrai 6.000

iG Minas Gerais | Bernardo Almeida |

Escancarado. Autor explica na página “A chibatada é a serventia da casa” que usa a ironia e sente tristeza pela discriminação
Reprodução Twitter
Escancarado. Autor explica na página “A chibatada é a serventia da casa” que usa a ironia e sente tristeza pela discriminação

As inúmeras humilhações que as empregadas domésticas enfrentam ficaram evidentes em um perfil no Twitter criado justamente para denunciar, por meio de sátira, esses abusos. O perfil @aminhaempregada reúne e critica postagens em que as trabalhadoras domésticas são tratadas com preconceito. Os comentários, todos reais, usam adjetivos pejorativos como burras, ladras, objetos sexuais e até mesmo “nordestina” e “paraíba” como representação de inferioridade. Há três dias no ar, o perfil reunia, na noite dessa quinta, mais de 6.000 seguidores. “Ainda existe essa mentalidade de as pessoas não verem as empregadas domésticas como trabalhadoras, como seres humanos. É o que fica bem claro quando as donas de casa se referem a nós com o termo ‘menina’, em vez de nos verem como funcionárias”, afirma a presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Creuza Maria Oliveira. O responsável pela página, que não retornou ao pedido de entrevista de O TEMPO, deixa claro o propósito com um senso de humor afiado: “A chibatada é serventia da casa. (Contém ironia e tristeza na batalha contra o preconceito)”. O uso do humor é uma fórmula excelente para lidar com o assunto, segundo a professora de administração da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), Juliana Teixeira. “O humor é uma das formas que a sociedade encontra para escancarar seus problemas. E o problema maior é o imaginário brasileiro ainda associar as empregadas domésticas com as escravas, perpetuando aquela ideia de servidão, subserviência sexual e ignorância características do regime escravagista”, acredita. Com doutorado na área das relações trabalhistas, ela fez um estudo sobre um caso parecido pelo qual, no ano passado, recebeu o prêmio nacional Construindo a Igualdade de Gênero, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Juliana analisou uma comunidade da rede social Orkut chamada “Vítimas de empregadas domésticas”, em que mais de mil empregadoras usavam o mesmo tipo e preconceito contra domésticas. “No Twitter, as mensagens são compartilhadas sem pudor, uma banalidade desse preconceito sem ter noção da dimensão”. Outra diferença é a predominância de jovens entre os reprodutores do discurso preconceituoso, o que não surpreende a presidente da Fenatrad. “Os filhos veem os pais fazendo e repetem. Eu já recebi xingamentos e até chutes de crianças que só repetiam o comportamento agressivo dos pais conosco”, lembra Creuza Oliveira.

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