As devidas honras ao patrono

“Humberto Mauro – O Grande Pioneiro do Cinema Brasileiro” leva filmografia do mineiro à sala que tem o seu nome

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Pioneiro. Mauro é considerado ainda hoje o primeiro autor do cinema nacional, com uma obra consistente e consciência da linguagem
O TEMPO
Pioneiro. Mauro é considerado ainda hoje o primeiro autor do cinema nacional, com uma obra consistente e consciência da linguagem

Quando buscou referências para sua teoria de um cinema que surgisse genuinamente das contradições brasileiras, Glauber Rocha acabou ressuscitando o nome de Humberto Mauro, que se encontrava abandonado no sótão da filmografia nacional nos anos 1950 e 60. Mesmo tendo sido realizadas nas décadas de 20 e 30, Rocha acreditava que as obras do diretor, e seus conflitos entre o campo e o urbano, o desejo e a natureza, falavam melhor do que quaisquer outras sobre as transformações do Brasil de sua época.

A mostra “Humberto Mauro – O Grande Pioneiro do Cinema Brasileiro”, que começa hoje na sala que leva o nome do diretor, no Palácio das Artes, tem o mesmo objetivo de promover um diálogo entre as “questões maurianas” e “as questões contemporâneas”. Apesar de já ter realizado outras mostras, debates e homenagens à obra de seu patrono, o curador Rafael Ciccarini revela que permanecia o desejo de uma retrospectiva – nos moldes daquelas feitas com Buñuel, Hitchcock e, mais recentemente, Bergman – que representasse uma “descida mais radical e que fizesse jus ao seu legado para a cinematografia nacional”.

“Nada mais natural que introduzir o cinema brasileiro nessa série de retrospectivas com o Humberto Mauro”, argumenta Ciccarini. Para ele, do ponto de vista do panorama das discussões sobre a produção nacional, o nome do mineiro de Volta Grande tem um respeito quase distante e esquecido. “É preciso retomar o que o cinema dele diz esteticamente, que é a essência do que significa fazer cinema brasileiro”, propõe.

Para reforçar como essas questões continuam pertinentes hoje, a mostra tem sua abertura oficial amanhã às 19h30, com o projeto “CePiaXiíCatu”. Cumprimento guarani utilizado por Humberto Mauro, a obra é uma leitura multimídia com quatro dos principais filmes do diretor editados em duas projeções, acompanhadas por uma trilha executada ao vivo por Ricardo Garcia e Gilberto Mauro, sobrinho-neto do cineasta. “Eles têm essa característica dupla, que é o desejo da mostra, de lidar com o passado com um approach contemporâneo”, explica o curador.

Para Gilberto – que é músico, trabalha com trilhas e já vem apresentando “CePiaXiíCatu” desde 2006 – a peça estabelece uma cumplicidade estética entre seu trabalho e o do tio-avô, imortalizando-a para que não fique presa no passado. “A gente faz uma brincadeira com os sons da época e estéticas da música eletrônica, eternizando de um jeito atemporal”, descreve.

A presença de Gilberto marca ainda a intenção da mostra de honrar a família do patrono da sala. Na abertura, também será feita uma homenagem póstuma a Zequinha Mauro, filho e parceiro do cineasta mineiro. “Um herói silencioso, carregador de piano e diretor de fotografia de vários dos documentários do pai”, reconhece Ciccarini.

Vanguarda primitiva. Vários desses documentários, por sinal, estarão na retrospectiva – especialmente aqueles realizados quando Humberto Mauro foi diretor Instituto Nacional do Cinema Educativo (Ince), entre 1936 e 1964. Dos 15 longas do diretor, apenas sete sobreviveram ao descaso com a história do cinema brasileiro e também serão exibidos – as cópias variam entre 35mm, 16mm e formatos digitais.

Completam a programação vários dos curtas feitos pelo mineiro, além dos longas “Como Era Gostoso Meu Francês”, de Nelson Pereira dos Santos, e “Anchieta, José do Brasil”, de Paulo Cézar Saraceni, que contaram com a colaboração de Mauro no roteiro. É um retrato do percurso do realizador desde o início, com seu cinema “primitivo” em Cataguases nos anos 1920, o contato com o cinema de vanguarda europeu quando vai para a Cinédia no Rio de Janeiro na década de 30, e sua produção oficial.

“É um cinema que colide a pureza primitiva com uma poética de vanguarda difícil de ser categorizada fora da obra dele. Não é griffithiana, nem eisensteniana. É mauriana”, analisa o curador.

A mostra vai contar ainda com debates e cursos com especialistas como Sheila Schvarzman e Eduardo Morettin – que acabaram de lançar livros sobre o cineasta. O encerramento acontece 12 de junho, com a exibição do clássico “Ganga Bruta” no Grande Teatro do Palácio das Artes, acompanhado de trilha ao vivo da Orquestra Sinfônica. Os ingressos já estão à venda, a R$ 10.

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