O jeito Fifa de não ser

iG Minas Gerais |

Hélvio
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Na semana passada, o foguetório era tanto que pensei: o Cruzeiro se classificou... Por outro lado, estranhei a falta das buzinas na saída do Mineirão. Desconfiada, fui conferir na internet o resultado do jogo e, em meio a estouros, gritos e bombas, descubro que a festa vinha dos atleticanos, comemorando a desclassificação do rival na Copa Libertadores. Olho penalizada pros meus cachorros, desorientados com a confusão. E fico pensando em quem não tem nada a ver com isso, detesta futebol e é obrigado a ouvir tantos bombardeios no meio da noite. Sim, porque o foguetório tornou-se ritual comum, tanto da parte dos que ganham, como da parte dos que torcem contra. Às sete da manhã do dia seguinte os estouros continuam... Constato que torcedores gastam tempo e dinheiro com o único intuito de irritar os “rivais”, que, se não bastasse a dor da derrota, ainda têm que aturar tamanha aporrinhação. Quando jovem, colocava o travesseiro na cabeça só para não escutar as comemorações celestes. Cada foguete estourado era como uma bomba na cabeça, desorientando-me que nem aos cachorros de minha casa. Hoje, respeito e até me solidarizo com a torcida adversária, até porque divido com ela as alegrias e as aflições que o nosso time de vôlei proporciona. Obviamente que, nos gramados, não consigo torcer a favor, mas também não me vejo como antigamente, jogando pragas e xingamentos à revelia. Entendi tardiamente que grande parte dos jogadores de futebol não merece nosso sofrimento ou manifestações de fanatismo. Vejo gente se matando por jogadores que não estão absolutamente nem aí: gandaieiros, farristas que ganham rios de dinheiro, se autovangloriam e não têm o menor amor à camisa que vestem, apenas aos salários estratosféricos que a profissão e a fama lhes proporcionam. Dinheiro que eles, se não tiverem orientação e equilíbrio, perdem da noite pro dia. Mês que vem tem Copa. E, provavelmente, muita confusão na rua. Infeliz o dia em que o Lula inventou de trazê-la ao Brasil. Sim, pois não foi a Fifa que ofereceu, ele é quem foi atrás. Se soubesse do tiro no pé que estava dando, certamente não o faria. E se a Fifa soubesse da enrascada em que iria se meter, daria um jeito de se esquivar. Sim, a Copa pôs o Brasil em evidência, infelizmente, de maneira negativa. Leio que o Brasil foi o país que teve mais tempo para prepará-la, sete anos, e, mesmo assim, é o mais atrasado. Estádios caríssimos e outros fadados a elefantes brancos ainda estão por acabar. A França teve três anos e finalizou as obras um ano antes. A África do Sul teve cinco anos e terminou com cinco meses de antecedência. Mês que vem está aí, e o Itaquerão – palco do jogo de abertura – só será concluído após a Copa. E me pergunto: se em São Paulo existe o Morumbi e o Pacaembu, por que foram construir um terceiro, em vez de reformar os outros? Lembrando que o estádio fica a 23 km do centro da capital e nem sequer conta com linha de metrô. A previsão de seu custo, que era de € 300 milhões, já passou de € 500 milhões. Pior é em Brasília (sempre lá), cujo time local não passa da Quarta Divisão e onde a média de público pagante é de 600 torcedores. Mesmo assim, construíram um estádio para 68 mil pessoas, naturalmente com financiamento público, claro!!! Sei que esses bilhões de euros gastos resolveriam uma infinidade dos nossos problemas. Tem razão de ser a revolta nas ruas... Não somente contra a corrupção endêmica, a carga tributária estratosférica, a burocracia burra, saúde, educação e transporte a desejar... Mas, acima de tudo, pelo descontentamento com a inversão de prioridades, quando um país com tantas carências é obrigado a seguir o chamado “padrão Fifa de qualidade”, voltado exclusivamente ao futebol. Ministérios das Relações Exteriores de alguns países, como os do Japão e da Alemanha, alertam seus torcedores. É no mínimo constrangedor ler na imprensa internacional a opinião que têm do Brasil. Riscos de roubo, sequestros-relâmpago, fraudes com cartões de créditos, crimes organizados, preços abusivos, passagens e hospedagens caras, transporte precário, drogas, prostituição infantil etc... etc... Traficantes comemoram a vitória do seu time com tiros de fuzis, como se foguetes fossem, numa imagem que correu o mundo. Gostaria, sinceramente, que estivéssemos todos errados e que, apesar dos pesares, nosso povo amável, hospitaleiro e alegre apresentasse o nosso país com um belo cartão de visitas, abrindo nossas portas ao turismo e aos investimentos. Dizer que a Copa me empolga seria uma inverdade. Se ganharmos, ótimo! Apenas temo que o torcedor, ofuscado pela vitória, esqueça tudo o que foi feito e gasto para que isso acontecesse. E espero que, no fim dessa história, ele não se esqueça de perguntar: “Ô Dilma, quando minha mãe adoecer, para qual estádio devo levá-la???”.

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