No escuro aterrorizante

Diretor Enrique Diaz fala sobre o espetáculo “Cine Monstro”, que ele apresenta em BH na programação do festival

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Solo. Enrique Diaz dá vida a 13 personagens em “Cine Monstro”
Nathalie Melot/divulgação
Solo. Enrique Diaz dá vida a 13 personagens em “Cine Monstro”

O ator e diretor Enrique Diaz está em cena em “Cine Monstro”, uma das atrações do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua (FIT-BH), a partir de amanhã. No espetáculo, ele dá corpo a 13 personagens cujas histórias convergem numa revelação, numa narrativa violenta aos moldes de um filme de terror.

O solo completa a trilogia de textos do canadense Daniel MacIvor, que originaram as montagens “In on It” e “A Primeira Vista”, às quais o diretor carioca se dedica após a saída da Cia. dos Atores. Por telefone, Enrique Diaz falou ao Magazine sobre seu trabalho e o fascínio pelo mal.  “Cine Monstro”, “In on It” e “A Primeira Vista” já foram pensados como trilogia pelo autor Daniel MacIvor? Na verdade, se tornou uma trilogia por nomeação no Brasil, porque aconteceram essas três montagens. Elas realmente se ligam entre si, como se ligariam a outras peças dele facilmente. As duas primeiras são muito semelhantes na estrutura, na relação de um casal e na questão da morte. E “Cine Monstro”, como se relaciona com elas? “Cine Monstro” foi escrita antes. Na minha interpretação, ele (MacIvor) escreveu “A Primeira Vista” como maneira de explorar um pouco mais “In on It”, trabalhando com personagens femininos. Mas “Cine Monstro” também é muito próxima porque tem estrutura caleidoscópica, um revelar lento de uma estrutura geral, de arestas temporais, só que não são dois personagens e dois atores, não tem a questão do afeto que redime as pessoas no fim de tudo. “Cine Monstro” é uma paisagem mais pesada. O tema em comum não seria o amor, mas a morte? “Cine Monstro” é um pouco o avesso, o lado B. Nesse caso, a morte é mais terrível, não traz nada de bom. Quando fiz “Ensaio.Hamlet” e “Gaivota”, uma toda em preto e outra em branco, eram também opostos, mas muito próximos. Interessa a você como artista retomar experiências de variações sobre um tema ou forma? Não sei se isso para mim tem aparecido mais com a idade: não querer necessariamente mudar de direção muito rapidamente e frequentemente. Talvez seja uma mudança a partir da minha saída da companhia, fui focando em textos com menos atores e na obra de um cara só, e fui gostando muito do que aprendi com ele de exercício e da relação com o público. Nesse caso, também foi interessante porque pude me propor a fazer um exercício de ator. Como tinha essa convivência com textos dele, parecia um desafio não tão assustador. Você falou da sua relação com o público, ela se alterou nos últimos anos? Desde os primeiros trabalhos da companhia havia um jogo claro de proximidade e distância. Procurar sempre comunicar mas ter consciência de onde quero provocar o ruído, o problema, a dificuldade. A ideia de um ator interpretar todos os personagens já vinha do autor? É uma opção dramatúrgica, ligada a uma noção de fragmentação do sujeito, ou só de encenação? Tem as duas coisas. Daniel fez muitos monólogos solos que escreveu, ele tem uma tradição que resvala no stand-up. Tem também um conceito presente nas outras peças de a gente ser trespassado pelo outro. Esse personagem é trespassado pelos outros personagens que ele evoca. A gente é sempre, no mínimo, duas pessoas ao mesmo tempo. A peça lida com o fascínio do mal. Como artista que recusa o moralismo, que postura ética implica a representação do mal? Isso é uma coisa delicada. Estou muito na carona do que o Daniel escreve, através de uma quebra de ponto de vista permanente. Tem essa coisa do travestismo, da mobilidade, de trânsito entre comédia e terror. A experiência do público é muito dinâmica. O mal ali é uma experiência e transita entre olhar personagens que perpetram o mal e entender como aquilo está funcionando no personagem. Ao mesmo tempo, fala do fascínio que o próprio público pode sentir, como alguém que saiu de casa para ver alguma coisa “dar errado”. Se não, não tem drama. Ele articula para que o público reconheça nele mesmo uma semente de querer ver problema. Até que ponto você gosta de ouvir a descrição de um cara sendo morto em pedacinhos? E o humor faz com que se vá lidando com o mal de uma maneira mais possível de ser percebido na gente mesmo. O mal passa desde um elemento bíblico até o mais cotidiano; conforme for seu olhar de espectador, pode vê-lo em vários níveis e detalhes. Você relaciona esse tema com o contexto de violência no Brasil, como os linchamentos? Eu alterno alguns cacos na peça e, às vezes, jogo isso no meio. Estreei no momento das manifestações. Agora, tem o linchamento. Ontem, um dos cacos foi o do garoto negro preso no poste. Isso faz sentido, sem que a peça se reduza a isso.

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