Movimento ‘cara limpa’ ganha força e questiona maquiagem

Pintura no ambiente de trabalho está ligada à subordinação, opina especialista

iG Minas Gerais | Bee Shapiro |

Atuação. Sutton Foster, atriz norte-americana, também é fã do visual natural, embora se cubra de pintura durante suas apresentações
Piotr Redlinski / The New York T
Atuação. Sutton Foster, atriz norte-americana, também é fã do visual natural, embora se cubra de pintura durante suas apresentações

Nova York, EUA. Quando se lê uma reportagem com alguma famosa e a beldade afirma que está “de cara lavada”, a tendência quase automática é revirar os olhos; no entanto, há algum tempo, seja na passarela, nas ruas ou nos meios de comunicação, o visual cara limpa parece ter se firmado como a nova regra de ouro. E para provar a versão contemporânea do conceito de autenticidade, estrelas como Beyoncé e Gwyneth Paltrow postam selfies sem maquiagem com orgulho, às vezes acompanhadas da hashtag #nomakeup. A revista “Slate” sugere que a “tendência” esteja ligada ao “normcore”, movimento de moda questionável inspirado pela estética suburbana; já outros acreditam que seja o equilíbrio entre pragmatismo e feminismo.

Emily Weiss, fundadora e diretora criativa do site de beleza IntoTheGloss.com, admite que há um movimento defendendo a filosofia do “menos é mais”: “Hoje em dia, o conforto está superando a beleza. É meio que um conceito de respirabilidade”.

Diane Kendal, maquiadora de Nova York, ficou famosa por criar um visual de passarela neutro para estilistas como Prabal Gurung, Alexander Wang e Thakoon. Embora ela garanta que o look sempre fez parte de seu repertório, “a cara lavada é, sem dúvida, uma menção aos anos 90, época em que muitos profissionais de hoje estavam crescendo e que lhes serviu de referência. Parece mais moderno e dinâmico. Estar de cara limpa dá um ar de confiança a qualquer uma”.

Ela, que não usa pintura, afirma que para muita gente nas indústrias da moda e beleza rosto limpo é uma condição diária. “A maquiagem cria uma imagem, talvez uma fantasia, com a qual trabalhamos todos os dias. Eu não uso porque não tem a ver comigo”.

A blogueira Leandra Medine, escreveu um post, em abril, explicando por que sua rotina diária não incluía maquiagem (parte preguiça e parte aceitação da aparência) que fez tanto sucesso que tirou o site do ar. “Não encaro necessariamente o fato de eu não usar maquiagem como uma afirmação social ou decorrência de trabalhar em uma indústria dominada pelas mulheres. Tem mais a ver com o fato de que estou sempre correndo, preciso sair rápido e quero ir para cama logo”.

Palco. Sutton Foster, atriz vencedora do Tony, também é fã do visual natural – embora esteja sempre coberta de pancake, rouge, batom e cílios postiços para interpretar personagens glamorousas. “De manhã, na hora de me arrumar para enfrentar o mundo, prefiro usar meu tempo fazendo outras coisas que me encarar no espelho”, confessa.

Foi com enorme prazer que encarnou a protagonista de “Violet”, nos teatros norte-americanos, e ela fala sobre a odisseia de uma jovem para se livrar de uma cicatriz no rosto – que não exigiu maquiagem nenhuma (mesmo a marca foi deixada à imaginação da plateia). É a primeira vez que ela aparece no palco sem base nem rímel, resultado da decisão criativa tomada com Leigh Silverman para destacar a vulnerabilidade inicial da personagem, e depois, sua força.

“A mensagem, que trata de descobrir a beleza natural, se perderia totalmente se Sutton aparecesse de corretivo e gloss. Ter orgulho de mostrar um rosto limpo é sinal de autoconfiança”, reflete a diretora.

Feminismo. Para Leandra, o visual limpo sempre vai remeter ao feminismo. Deborah Rhode, professora de Direito da Universidade de Stanford e autora de “The Beauty Bias”, pegou mais pesado no tópico. Para ela, a expectativa da presença da maquiagem no local de trabalho está ligada à subordinação feminina.

“As mulheres estão sujeitas a padrões muito mais rígidos quando se trata da aparência”, afirma ela. “É meio que implícito o fato de que a mulher parece menos profissional se não usar maquiagem no local de trabalho, mas a verdade é que ela está sujeita à filosofia do ‘dois pesos, duas medidas’, ou seja, peca pelo excesso e pela ausência. Ou é ‘relaxada’ ou ‘fútil e narcisista’”.

Deborah espera que, um dia, o uso da maquiagem (ou ausência dela) se desassocie da competência. “Se eu dou uma aula quero ser avaliada pela qualidade dela, não pela cor do batom que estou usando”, afirma.

Elas mostraram o rosto na web Conhecidas por sempre aparecerem em público produzidas, algumas famosas levantam a bandeira da “cara limpa” nas redes sociais. No Instagram, a apresentadora Angélica postou recentemente uma foto em que aparecia sem maquiagem, dando “boa noite” para seus seguidores. A cantora norte-americana Beyoncé é uma das celebridades que investem fortemente na aparência, mas ela também costuma publicar fotos em que aparece não apenas sem pintura, mas com os cabelos aparentemente naturais. A top Gisele Bündchen usa o Instagram para registrar momentos do cotidiano. Fotos de “cara limpa” não faltam na conta da modelo. A atriz norte-americana Gwyneth Paltrow, 41, não teve medo de exibir sua cara lavada no Facebook. Em um post “cara limpa”, ela aparece bebendo água e aproveita para fazer um apelo. “Cheio de poder de cura. Apoio a Drop4Drop”, em referência à ONG dedicada a combater a escassez mundial de água.

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