Copa pra quem?

iG Minas Gerais |

Ilustração Hélvio Avelar
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Sou de um tempo em que a Copa do Mundo era um evento tão especial que o sentimento geral era que fosse de dois em dois anos, e não de quatro em quatro. Sou de um tempo em que só a espera pelo Mundial já era uma festa, numa expectativa sem fim, numa vontade interminável pelo apito inicial. Sou de um tempo em que, como a espera era interminável, eu pintava as ruas, colocava bandeirinhas verde-amarelas entre as casas, pichava os muros com as cores brasileiras, fazia da pequena avenida em frente à minha casa em Antônio Carlos uma verdadeira passarela da bandeira nacional. Sou de um tempo em que as propagandas sobre a Copa na TV te traziam felicidade, energia, orgulho, vibração, ansiedade. Sou de um tempo em que custava-se a completar o álbum com os jogadores da Copa porque não tinha Facebook pra ajudar com a única que falta daquela seleção nem esses encontros na praça da Estação que te vendem bolos de figurinhas, perdendo a graça do que é colecionar. Sou de um tempo em que, nessa época, todo mundo colocava uma bandeirinha pra fora na porta do carro ou estendia uma maior por dentro e a deixava exposta no vidro traseiro. Sou de um tempo em que eu não queria, de forma alguma, que a Copa do Mundo fosse em outro país, a não ser o meu. E, quando esse dia chega e eu posso sediar a Copa, sou um dos primeiros a querer retuitar e compartilhar aquela tal hashtag #NãoVaiTerCopa.

Andei por cada canto de Belo Horizonte e não vi, em nenhum bairro, uma rua com uma bandeira sequer, ou um muro pintado, ou sorriso verde-amarelo dobrado. Nenhum sentimento feliz ou patriota me faz acreditar que a Copa de 2014 vai ser no Brasil e que está quase chegando... As únicas certezas que tenho de que a Copa está logo ali são as obras inacabadas dos aeroportos, os estádios que vão virar elefantes brancos lá na Amazônia ou no Pantanal, as manifestações que fizeram uma amostra violenta no ano passado, na Copa das Confederações, e que já começam a pipocar por todo o país, o trânsito que está caótico, não por causa dessas manifestações, mas porque não existe um plano de mobilidade urbana nas grandes metrópoles nem no dia a dia... Imagina na Copa?

Descobri na internet uma dessas imagens que vão fluindo como vírus nas redes sociais dizendo que, há uns 30 anos, o presidente João Figueiredo negou um pedido da Fifa para a realização do Mundial no Brasil. Era a manchete de capa do “Zero Hora”, de Porto Alegre (RS): “Governo veta a Copa no Brasil”. O general achava ser um gasto desnecessário. Ele foi logo expondo seus motivos ao então presidente da Fifa, João Havelange: “Você conhece uma favela do Rio de Janeiro? Já viu a seca do Nordeste? E você acha que eu vou gastar dinheiro com estádio de futebol?”. Por mais que fosse um governo militar e os tempos de política fossem outros, esse homem foi um “gênio”. Se um desses aí estivesse no poder hoje, evitaria gastos de absurdos R$ 25 bilhões com um Mundial de futebol, enquanto a saúde e a educação nacional pedem socorro, clamam 25 bilhões de vezes por atenção.

A notícia é de 1983, mas eu queria que fosse atual. Durante muitos anos, quis que a Copa chegasse ao nosso país soberana, absoluta, envolta no seu melhor nacionalismo. Chegou, e, agora, só o sentimento de revolta insiste em permanecer. A Copa é pra quem mesmo? Porque, se for pra mim, me avise, pois vou querer muito mais do que gols.

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