A insurgência dominada (ou domada)?

iG Minas Gerais |

Corro nestes tempos, a duras penas, contra a bibliografia que usei antigamente. Tento – sem saber se consigo – entender o que se escreve agora sobre o capitalismo do século XXI (que ousei comentar, sem ler, na semana passada) e este “O Novo Tempo do Mundo”, de Paulo Arantes, cujas notas de rodapé rodopiam em minha cabeça, já muito esquecida. Caio pelas tabelas, sem fôlego para correr das polícias e forças nacionais, sem poder aspirar bombas de gás lacrimogêneo ou gás de pimenta, sei lá o nome que dão a esses instrumentos de aquietar os desinquietos, desequilibrados e excluídos deste “mundo, vasto mundo”. Sou, aliás, desse tempo de Carlos Drummond de Andrade: o resto para mim é aprendizado até o fim da vida. E, de repente, por causa de um documentário sobre Simone de Beauvoir e revendo mentalmente vidas como as de Frida Kahlo, Elizabeth Bishop e Lotta Macedo Soares, não consigo dormir direito a me perguntar que diabo deu no mundo para que amores não convencionais venham a ser tema de novelas da Globo, entrem em talk-shows ou reality shows (sei lá se dá na mesma) ou sejam livros best-sellers de todo tipo de gente, vire moda enfim, gays e lésbicas ou Ts de vários matizes que enfiam alianças nos dedos e fazem casamentos bastante convencionais. Terão todos mordido a isca do oficialismo que vai matando a liberdade e jogando cada vez para mais longe a igualdade – esses dois velhos sonhos da humanidade em todos os tempos? Serão eles movidos apenas pelo sonho do amor, e o amor será sempre assim, papel passado, aliança no dedo anular, vivendo sob um mesmo teto? Ou terão sucumbido – sem saber, quem sabe? – à pressão da propriedade de bens acumulados, sejam imóveis, semoventes ou móveis, pensões, aposentadorias, heranças enfim? Ou planos de saúde pelo olho da cara? O que move tanta gente em busca de ser aceito desde que aceite o padrão oficial? Brigar contra a homo ou a transfobia, sim. Isso não se reduz à luta por “direitos humanos” – quantos tipos de humanos somos nós?! Lutar contra a homo ou a transfobia é lutar contra a intolerância, a favor do direito à diferença, contra a exclusão dos desiguais. Desiguais em renda, cor da pele, orientação sexual, local de moradia, jeito de se vestir, preferência ideológica, escolha religiosa ou não escolha, sem escolaridade, andando a pé ou entulhado em ônibus, enquanto outros viajam de helicóptero quando se podia caminhar, pois caminhar faz bem à saúde e pode ajudar a quem se entope de comidas trans, bolos de chocolate e biscoitos recheados – para não falar em pipoca, assentados em frente à televisão, sem se levantar sequer para trocar o canal. Os insurgentes não podem aceitar reuniões adrede preparadas, lideranças que se deixam cooptar. Que pensem na lição de Jair Meneguelli, fundador e presidente da CUT, segundo transcreve Paulo Arantes e repete Mário Sérgio Conti: “Virou profissão, das boas, ser um dirigente sindical”. Deus nos livre da insurgência virar, um dia, “profissão, das boas”. Será o fim de tudo.

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