Salvem os pretos velhos

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“Vovó não quer casca de coco no terreiro, é só pra não lembrar dos tempos do cativeiro”. Tem coisa mais bonita que elevar a guia espiritual alguém que teve sua humanidade retirada? É assim com os pretos velhos, a entidade da umbanda e do candomblé. Há várias versões sobre como surgiram na verdade essas entidades, que são puro afeto e amor. Alguns dizem que foram “grandes sacerdotes do culto dos Orixás e, por alcançaram a sabedoria, usam dos seus conhecimentos para os trabalhos de cura e descarrego”. Há aqueles que afirmam que os pretos velhos “eram homens predestinados, encarnados para assegurar um lenitivo ao sofrimento dos escravos, e que, por sua bondade e sabedoria, cativaram a amizade até dos senhores brancos, a quem também acudiam com conselhos e curas”. E existe ainda a lenda que foram homens comuns, “que alcançaram a redenção espiritual por meio dos suplícios do cativeiro. A sua tolerância ao martírio, sem manifestar revolta ou ódio pelos seus algozes e o profundo amor indiscriminado pela humanidade, os ascendeu a um patamar de mestres espirituais”. Seja como for, eles foram escravos e, por meio da religião, hoje são seres espirituais que dão conforto e cura para aqueles que os procuram. E como é doce a forma e o conteúdo de sua fala! Sempre a nos lembrar que é preciso nos afastarmos de tudo o que é material e que a felicidade está na nossa paz de espírito. Sempre pronto para nos tirar as dores da alma e do corpo com seus passes mágicos, seus banhos de ervas, seus remédios caseiros. E não é preciso acreditar de fato em seus poderes para se encantar com a lenda que se formou em torno deles, não é? Pessoas que sofreram na pele e no espírito e que agora voltam, de alguma forma, para ajudar os necessitados. Li no Facebook de uma amiga este pequeno texto: “Sempre que eu precisei de uma palavra amiga, de um colo pra chorar, de alguém com quem dividir uma alegria, um deles estava lá. Sempre do meu lado, sempre olhando por todos nós, do jeito mais simples possível. Por tudo, obrigada. Muita luz. Salve os pretos velhos”. Era 13 de maio, dia em que se celebra os pretos velhos. O mesmo dia em que se comemora a abolição da escravidão, não por acaso. Afinal, só depois de libertos os escravos puderam se unir nas primeiras irmandades, para praticarem seus cultos, que depois dariam origem ao candomblé e à umbanda, religiões que são verdadeiros focos de resistência. Não apenas por terem essa origem, mas, principalmente, por nos dias de hoje sofrerem ataques e não terem o reconhecimento que merecem. Por isso, a importância dos que ainda resistem e mantêm seus terreiros contra tudo e contra todos. Salve as mães de santo e os pais de santos e seus filhos que mantêm viva uma das manifestações mais genuínas da nossa cultura. Salve Nilza, salve Tuca, salve Adriana, Júnior, Tizinha e toda a irmandade, que me introduziram nesse universo muito particular e que tem me feito tão bem!!

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