Olhar documental alinhava acervo exposto no CCBB

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |


Textos e imagens percorrem cerca de 20 anos de história
douglas magno
Textos e imagens percorrem cerca de 20 anos de história

Em torno do material gráfico, informativo e das criações artísticas acolhidas na mostra “Resistir É Preciso...”, inaugurada hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil, localizado na praça da Liberdade, há um olhar documental que os curadores Flávio Magalhães, Vladimir Sacchetta e José Luiz Del Roio apresentam ao público. Essa qualidade se traduz nas escolhas da equipe que privilegiou o valor histórico do acervo.

Responsável pela seleção das obras de arte, Magalhães explica que ali se encontra, sobretudo, um recorte, tendo em vista a vasta produção artística da época. “Merece destaque os trabalhos da coleção de Alípio Freire, jornalista e ex-preso político. Ele foi também um artista plástico que ficou por muitos anos no presídio Tiradentes, em São Paulo, e guardou obras feitas por outros presos, naquele momento. Por isso, esse conjunto é muito precioso”, observa Flávio Magalhães.

Um dos nomes que figuram nesse acervo é Sérgio Ferro. Nascido em Curitiba, ele homenageou Carlos Lamarca (1937-1971) e Carlos Marighella (1911-1969), ambos envolvidos na luta contra a ditadura, em dois do seus trabalhos intitulados “São Sebastião” e que podem ser vistos na exposição.

“Essas peças, no entanto, não fazem parte da coleção Alípio Freire. Elas vieram do Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. Há nelas uma atitude de se criar a partir dos elementos que o artista encontrou ao seu redor, como os objetos descartáveis. Porém, ele não exibe esses elementos em sua brutalidade, e dá um tratamento pictórico ao que utiliza”, observa Magalhães.

É grande também a presença das gravuras na mostra. Ele explica que isso se deve, em parte, ao modo como alguns dos artistas aparecem em sintonia com o mesmo movimento ancorado na difusão das publicações de resistência.

“Eles estabelecem vínculos com a imprensa da época, produzindo ilustrações. Outros, como Alex Flemming, cria uma série de gravuras em que denuncia a tortura, por exemplo, na série ‘Natureza-Morta’, afirma Magalhães.

Ao mesclar obras e peças informativas, a exposição, de acordo com José Luiz Del Roio, constrói um importante panorama das artes plásticas na época da ditadura, área que ele considera pouco explorada, se comparada com a música e com o teatro. Ao mesmo tempo, nota como esse desenho também oferece uma abordagem didática interessante ao público jovem de hoje.

“Nós nos preocupamos em possibilitar, sobretudo, o conhecimento dos diferentes tipos de visões. Infelizmente, os jovens parecem não ter muita afinidade com a história do seu próprio país, os textos curtos inseridos na linha do tempo cumprem essa função. Por outro lado, as obras de arte servem como estímulo a reflexão. Nas criações de Sérgio Ferro, por exemplo, nós vemos a morte de Lamarca e Marighella retratada de maneira muito subjetiva. Ou seja, demanda um tempo que é importante para se relacionar de outra maneira com aquelas questões”, afirma José Luiz.

De acordo com Vladimir Sacchetta, o processo de organização do projeto foi realizado de maneira que fosse facilitada a integração entre a linha histórica e o acervo de artes plásticas. “A intenção é que esses dois conteúdos conversem entre si. Quem visitar a exposição vai percorrer painéis, com textos, imagens, fotografias que se alternam entre formas mais explícitas de se lidar com determinado assunto, e outras mais metafóricas. Essas possibilidades estão presentes tanto nos cartazes quantos nas obras de arte”, completa Sacchetta.

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