Memórias de forças e lutas

A mostra “Resistir É Preciso...”, centrada em jornais e obras de arte que refletem a resistência à ditadura, chega a BH

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Percurso. Mostra apresenta obras, como “Língua Apunhalada”, de Lygya Pape, e outras fotografias seguidas de linha do tempo que as contextualiza
douglas magno
Percurso. Mostra apresenta obras, como “Língua Apunhalada”, de Lygya Pape, e outras fotografias seguidas de linha do tempo que as contextualiza

Observar cartazes contra a tortura, a favor da anistia ou capas de jornais que se posicionaram em prol da liberdade no período da ditadura é uma maneira de identificar posturas e de acessar episódios de um passado ainda recente. Centrada nesse recorte, a mostra “Resistir É Preciso...”, aberta ao público a partir de hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, na praça da Liberdade, se apoia no instrumento da memória para propor reflexões direcionadas não só àquele momento, mas à presente realidade do país.

Ao lado do material gráfico e informativo que mapeia parte da imprensa de resistência, atuante no período entre 1964 e 1985 – que vai do percurso do golpe militar ao início do processo de redemocratização, respectivamente –, figuram também obras de artistas, como Cildo Meireles, Lygia Pape (1927–2004) e Alex Flemming, entre outros. Assim, eles somam interpretações sobre esse cenário e aparecem alinhados a outros grupos, como militantes que defenderam o direito de expressão num momento de forte mordaça à história e à cultura brasileira.

Para o jornalista, pesquisador, escritor e um dos curadores do projeto, Vladimir Sacchetta, a iniciativa valoriza o papel de quem lutou contra a brutalidade há cinco décadas. O objetivo, de acordo com ele, é recordar esse momento para não se perder de vista outras conquistas a serem alcançadas daqui para frente.

“A ideia é viabilizar esse olhar, que se volta há anos atrás, justamente para percebermos melhor o presente e desenharmos algumas expectativas para o futuro. Achamos necessário que determinadas ações iniciadas naquela época continuem inspirando outras, pois o país precisa avançar em várias aspectos”, diz Vladimir Sacchetta.

Um dos pontos frisados por ele é o status de violência endêmica percebida em diversas relações sociais e até no funcionamento de instituições atreladas aos governos. “O mesmo tratamento que era utilizado antigamente para punir os presos políticos hoje é lançado aos negros, pobres e outros grupos marginalizados. Um caso conhecido é a truculência da Polícia Militar que ainda possui uma maneira de agir semelhante àquela usada para reprimir os movimentos organizados contra o golpe de 1964”, explica.

Idealizada pelo Instituto Vladimir Herzog, a exposição, dividida em nove salas, exibe um precioso acervo que reflete a multiplicidade de opiniões dentro da oposição ao governo dos militares. Colaborou para a seleção desse material uma pesquisa iniciada em 2011 e que culminou na publicação de dois livros, “As Capas Desta História (2011) e “Os Cartazes Desta História”, elaborado por Sacchetta em parceria com o Instituto Vladimir Herzog.

“Durante esses anos, nós chegamos a digitalizar cerca de 50 mil páginas de jornais e conseguimos reunir as coleções dos principais órgãos dos três tipos de imprensa em exercício naquele período. São elas a alternativa e legal, que chegava às bancas; as clandestinas e aquelas produzidas por pessoas em situações de exílio”, sintetiza Sacchetta.

Além de exemplares de títulos emblemáticos, como “Opinião”, “Movimento” e “O Pasquim”, o curador ressalta, por exemplo, outros que reverberavam vozes emergentes, a exemplo de “O Lampião da Esquina”, dedicado à luta pelos direitos dos LGBTs; o “Tição”, articulado pelo movimento negro; e “Brasil Mulher”, com reivindicações afinadas com as ideias feministas.

“É muito interessante perceber essa diversidade de perspectivas que deram origem às publicações de resistência. Houve uma produção intensa apesar dos riscos enfrentados por quem escrevia aquelas páginas”, sublinha Sachetta.

O também curador José Luiz Del Roio ressalta que a mostra abre oportunidade para se conhecer impressos levados para fora do Brasil. Uma parcela desses conteúdos, de acordo com ele, retornou apenas a partir da década de 1980 ou 1990.

“Nos anos 1970, o ministro da Justiça, Armando Falcão, determinou que fosse destruído em qualquer casa ou biblioteca obras que tivessem algum caráter subversivo. Em razão disso, alguns arquivos foram enviados para fora do país e um dos destinos foi a Itália. A partir da redemocratização, isso começou a voltar ao Brasil, já com o valor de documento”, pontua Del Roio. “Vieram não só jornais, mas manuscritos, fotografias e diários”, completa.

Agenda

O quê. Abertura da exposição “Resistir É Preciso...”

Quando. De hoje a 28/7, de 4ª a 2ª, das 9h às 21h

Onde. Centro Cultural Banco do Brasil (praça da Liberdade, 450, Funcionários)

Quanto. Entrada franca

Homenagem 

A mostra expõe o novo atestado de óbito do jornalista Vladimir Herzog (1937- 1975), reproduzido acima. Em 2013, foi retificada no documento a causa da sua morte, substituindo “asfixia mecânica”, que dava margem para defesa do suicídio, por “maus-tratos”.

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