Comentário de Flausino divide opiniões e levanta polêmica sobre picho

O vocalista do Jota Quest chamou os pichadores de "idiotas" no programa Altas Horas, no último domingo; a crítica foi aplaudida, mas causou revolta em movimentos relacionados a cultura de rua

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

A pichação é considerada uma forma de expressão e também uma assinatura
OSVALDO RAMOS
A pichação é considerada uma forma de expressão e também uma assinatura

Há quem defenda a pichação como uma forma legítima de expressão e há quem diga que é coisa de “marginal” ou de desocupados. Há até quem estude sobre os movimentos ligados ao picho e a cultura de rua e como eles afetam a sociedade de forma técnica e aprofundada. E há ainda quem considere os pichadores “uns idiotas”, como declarou o músico Rogério Flausino, vocalista da banda mineira Jota Quest, durante o programa Altas Horas exibido pela Globo no último domingo (18).

Após a exibição de depoimentos de diversos pichadores, Flausino disse que o vídeo não lhe acrescentou nada, e que “só serviu para confirmar que [os pichadores] são “um bando de idiotas”. A declaração foi aplaudida pela plateia, mas levantou o debate sobre  a criminalização da pichação. A Lei 12.408/2011, que endossa o texto da Lei 9.605/1998, estabelece a pena de detenção de três meses a um ano, além de multa, para quem pichar ou conspurcar edificações ou monumentos urbanos.

No entanto, a prática do grafite, arte que tem a mesma origem que o picho - ambos são movimentos que pregam a liberdade de expressão por meio da arte ou do spray - é descriminalizada pela mesma lei, caso seja feito com o objetivo de valorizar o patrimônio público ou privado e se for consentida pelo proprietário ou locatário. Em caso de bens públicos, a autorização deve partir do poder público.

Além disso, a comercialização de tintas em embalagens do tipo aerossol é proibida a menores de 18 anos e, a maiores, apenas mediante identificação.

O debate

No programa Altas Horas, um dos pichadores observou o seguinte: “quando vão construir um prédio, um estádio ou um shopping, ninguém consulta a população. As pessoas não tem participação na construção da cidade e ficam revoltadas com o picho, que é uma intervenção efêmera. Um prédio construído ao lado da sua casa vai durar para sempre, nunca mais vai bater sol lá, mas o picho não. Ele pode ser facilmente removido”.

A grafiteira Maria Raquel Bolinho, cuja a arte pode ser vista pelas ruas da capital em formas de bolinhos antenados, entende que a diferenciação entre o grafite e o picho, se dá por causa da identificação das pessoas. “Eu acho sim que há muita semelhança entre grafites e pichações, mas o grafite tem um pouco mais da simpatia das pessoas, porque é mais fácil reconhecer. Gostar faz parte da identificação das pessoas. Se eu não entendo o que está escrito, o que significam aquelas letras, é mais fácil eu criar uma antipatia em relação a isso”, comentou.

O empresário Aloízio Costa, 29, conta que concorda com Flausino, apesar de já ter sido pichador, entre os 14 e os 17 anos. “Realmente, não adiciona nada na nossa vida. É uma revolta infantil. Já fui agredido por causa disso, e hoje eu vejo esse monte de mauricinho e patricinha querendo pagar de descolado, de artista e de revoltado, e acho ridículo. Há uma grande diferença entre grafiteiros e pichadores. Você se expressa com o grafite, e consegue o seu espaço, está lá a sua mensagem”.

No caso dos pichadores, o motivo de agirem na marginalidade acaba sendo resultado da falta deste espaço, já que a atividade é criminalizada. É o que explica a psicanalista Ludmilla Zago, doutora em Estudos Literários, autora de um projeto sobre o tema e coordenadora da Frente de Cultura de Rua, parte de um Programa de Pesquisa da Pós-Graduação da Faculdade de Direito da UFMG, chamado Cidade e Alteridade.

“Entendemos a pichação como expressão extremamente complexa. Como escrita, poesia, estética. Como ocupação urbana, como escrita de um direito à cidade e mesmo de uma educação patrimonial. Sim, porque o picho é o que autoriza e dá autoria ao pichador, além de dar lugar no espaço físico, no laço com a cidade e com as pessoas. É um discurso, uma política. Então é muito reduzido tratar apenas como sujeira, como crime ou feiura, ou ainda, como algo que atrai o crime para perto. É uma série de idéias que vemos reprisadas pelo poder publico a todo momento”, explicou a psicanalista.

Grafite e picho

O fotógrafo Cláudio Rezende, 27, também é um dos que concordaram com as declarações de Flausino. “Eu já pichei quando mais jovem porque um vizinho tinha matado um cachorro envenenado, mas hoje vejo que uma denúncia ou um diálogo seria melhor. Eu tinha uns quinze anos de idade, o errado me consumia naquela época, ainda mais como um fervor punk que eu tinha. Jamais a imagem, o símbolo, tiveram tanta importância para as pessoas. Tudo hoje é imagem porque ela se refere ao que você é, ao que pretende ser e ao que você acredita. Parece óbvio, mas não está claro para todo mundo. Isso vai do modo de vestir ao estilo de vida. Se uma imagem que se refere a você é alterada, na forma de pichação,não é apenas um patrimônio que está sendo violado, é você. Seja público por significar de onde você vem ou identifica e também se for seu, obviamente. Ainda mais que isso é feito com símbolos e analogias que geralmente são referentes a pontos de vistas radicais”, analisou.

Mas ainda segundo Zago, é também por causa da imagem que há uma espécie de "glamourização" do grafite atualmente, enquanto o picho continua marginalizado. “Acho que em um tempo marcado pelo consumo, pela imposição estética das cidades que se querem vender e querem dedicar-se ao desenfreado consumo, à proteção exacerbada e ilusória de si e de seus bens, é mais comum o entendimento do picho como algo idiota.  O pichador causa incômodo, com seu texto ilegível, sua estética própria, sua mídia própria. Nossa sociedade é cada vez mais conservadora, e, assim, mais moralista. A pichação é parte da cultura brasileira, e o o discurso mais comum, jamais aceita ou mesmo consegue ler ações, culturas ou escritas marginais. Cada época, sua marginalidade, cada marginalidade, seu enigma. E o enigma não só dificulta a leitura, mas retira do seu leitor a propriedade do sentido. Inalcançável, ele pode causar o temor”, explicou.

Um dos pichadores entrevistado no programa Altas Horas, Cripta Jan, contou que, mesmo com a ofensa recebida de Flausino, o recado foi dado. “Na minha opinião a matéria foi limpa, edição boa com um espaço bom. Nossa mensagem foi passada e isso que realmente importa, se vai agradar ou desagradar já é outra fita. O importante mesmo é que incomode".

Sobre os aplausos às críticas de Flausino, Zago ainda esclarece que é uma ideia mais fácil de ser aceita pelas pessoas. “Achei que foi a fala mais passível de ser aceita, já que o picho é rejeitado pela maior parte das pessoas, a resposta já chegou apoiada pelo senso mais comum, mas também mais rasteiro. Por outro lado, é curioso que os pichadores tenham falado, que tenham sido apontadas coisas como a comparação entre a agressão estética e a agressão física, e nada de sua fala tenha feito o menor sentido, mesmo o que foi dito mais claramente, para o cantor do Jota Quest. Idiota é aquele que goza solitariamente, e o pichador, o tempo todo se comunica com a cidade, a paisagem, o ordenamento jurídico, o olhar de muitas pessoas, os outros pichadores. Ele [Rogério Flausino] também não soube explicar o que é arte, ele diz grafite ou qualquer arte legal. Possivelmente, ele não conhece a história das escritas de rua, do grafite e do picho, que nascem da mesma essência e tem como parâmetro e norte a transgressão e a liberdade de expressão”, salientou a psicanalista. 

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