Sobre afeto e confiança

Destaques da edição anterior, festival apresenta criações de Claudio Tolcachir e Rodrigo García

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Drama. “Emília” trata do reencontro entre um homem adulto e a mulher que dele cuidou na infância
Gustavo Andres Pascaner
Drama. “Emília” trata do reencontro entre um homem adulto e a mulher que dele cuidou na infância

Nos próximos dias, o público de Belo Horizonte vai retomar o contato com dois artistas estrangeiros que estiveram na edição 2012 do FIT-BH, e poderá conhecer desenvolvimentos das obras deles. Um é Rodrigo García, que causou furor com “Gólgota Picnic”, o mais desestabilizador dos espetáculos daquela edição, ao verter ironia sobre religião, arte e consumo em um palco forrado por milhares de pães de hambúrguer. O argentino, radicado na Espanha, não dirige nenhum dos títulos da programação atual, mas é autor de “Frag#3 Aproximación a la Idea de Desconfianza”.

O outro, Claudio Tolcachir, esteve presente em 2012 com “Tercer Cuerpo”, um drama sobre pessoas solitárias, ambientado em um escritório. Agora, o diretor argentino volta com a peça “Emilia”, desta vez um drama doméstico. Ele se tornou um dos diretores argentinos mais respeitados no Brasil nos últimos anos, desde que trouxe quatro espetáculos do repertório da companhia Timbre 4 ao projeto Ocupação Mirada, do Sesc SP – entre eles, “Emilia”.

Assim como o conterrâneo Daniel Veronese, Tolcachir é reconhecido sobretudo pela dramaturgia própria e pela competência na direção de atores, encenando dramas com tintas realistas. “Emilia” foca o reencontro entre um homem adulto e a mulher que dele cuidou na infância, como forma de indagar a constituição dos afetos e sua continuidade em uma biografia. “Tenho interesse pelas histórias dos vínculos, a vontade de se encontrar que move as pessoas”, já declarou o argentino. No momento, ele participa do Festival de Cannes com o filme “El Ardor”, coprodução Brasil-Argentina na qual atua com Alice Braga e Gael García Bernal.

Performático. Outros tipos de afetos emanam de “Frag#3 Aproximación a la Idea de Desconfianza”. Sobrevive a usual verve questionadora de Rodrigo García, marcada por indagações éticas a respeito da postura humana diante das inevitáveis contradições do mundo, com o intuito de causar abalos na consciência do espectador e, assim, retirá-lo do anestesiamento.

“O texto fala de indiferença, consumo, política, amor e do humano, do ponto de vista da desconfiança das pessoas em relação às outras”, diz a diretora francesa Evelyn Biecher, da companhia Pitou Strash, responsável pela montagem. “Para nós, o trabalho de Rodrigo não é radical, é muito humano, entretém. A mim, me faz rir”.

O caráter performático da obra de García também resiste na montagem francesa, direcionando a atenção aos corpos em cena. Uma atriz seminua debate-se contra o plástico que a envolve como embalagem; outro ator é embalado a vácuo. “Fazemos um trabalho visual, plástico, apoiado no texto. Vamos ao extremo de cada situação”, diz Evelyn.

Ela comenta as diferenças entre a versão francesa e a montagem original, na qual os atores não falavam e os textos eram projetados. “Nós atuamos, falamos. Corremos, bailamos, gritamos, bebemos, tudo ao extremo do absurdo do humano. É só uma foto da sociedade atual”.

A relação que o espetáculo tenta estabelecer com o público é contraditória, vai do afeto à irritação, e coloca o espectador dentro do cenário. “O público entra em uma caixa preta e escuta as instruções: ‘vocês estão livres para caminhar por onde quiserem, proibidos de se escorar nos muros, matérias e gestos’. Corremos entre o público e ele se move em massa, o que se transforma em um coro grego”, diz a diretora.

Serviço

França. “Frag#3 Aproximación a la Idea de Desconfianza”, com a cia. PitouStrash. Hoje, amanhã e quinta, às 20h, no Galpão 4 da Funarte MG (rua Januária, 68, Floresta).

Argentina. “Emilia”, com o Timbre 4. Hoje e amanhã, às 20h, no Galpão 3 da Funarte MG.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave