Um protesto no caminho

iG Minas Gerais |

Estes apelos são endereçados a você, cidadão estressado, que se diz “de saco cheio” de tantas e tantas manifestações espalhadas pela cidade. Você que tem uma reunião marcada, que precisa pegar seu menino no colégio, que tem prova no primeiro horário ou que, enfim, conseguiu convencer aquela(e) colega gata(o) de almoçarem juntos. Depara-se com mais um protesto no meio de seu caminho e fica puto(a) – com o perdão do melhor vocábulo para descrever o estado psicológico. Seu desejo irracional, atrasado em que está com seus compromissos, é que a PM sentasse a borduna naquela “cambada de vagabundo que só quer avacalhar com a vida de todo mundo”. A pulsão demoníaca de passar com o carro – que dirige solitariamente numa ilha exclusiva com ar-condicionado – você refreia, senão acabará linchado por quem te irrita. Mais indicado é delegar a ordem de faxinar a avenida, por meio da violência, a quem dela tem o monopólio. Mas convém ressalvar que talvez sejam os próprios policiais os manifestantes. Calma, rapaz, essa é a temporada das manifestações. Todo ano de eleição é assim. É a ocasião ideal para o servidor público negociar com o patrão em sua hora mais frágil. “Funcionário público é um bando de vagabundo que só quer mamar, você talvez pense, nervoso. Conhece algum professor? Algum enfermeiro? Algum policial? Sabe a rotina deles? Categorias sofridas não faltam, meu caro. Quem tem demandas com o poder público, milita por teto, terra ou tudo, também aproveita. A um governante não convém enxotar movimentos sociais nessa época. “Por que não vão trabalhar em vez de depender do governo para viver?” Alto lá, companheiro, a coisa é bem mais complexa. Para além da eleição, a Copa multiplica as manifestações. Vêm na esteira de junho do ano passado e da revolta com os padrões Fifa restritos aos estádios. Legado para favelas, hospitais e escolas, isso nem o Fuleco, nem o Blatter vão trazer. Não se preocupe, leitor. Se tem ingresso para ver Argentina e Nigéria ou Inglaterra e Costa Rica, o caminho até o Mineirão estará livre para você na hora certa. Confie. Caminho livre também quer garantir a Justiça. É razoável a decisão do doutor Caetano Levi Lopes, que deferiu um pedido da Prefeitura de BH para que as passeatas promovidas pelos sindicatos de seus servidores, em greve, não ocupassem todas as pistas das avenidas por onde passassem. O trânsito continuará ruim, mas os manifestantes terão dado seu recado e haverá espaço para passarem ambulâncias, por exemplo. Tudo isso vai passar. É preciso ter paciência, amigo. Causas justas e urgentes todo mundo tem, inclusive você. Quem tem condições de vida péssimas ou salários que só encolhem têm mais razões para se impacientar do que você. Acredite nisso. Tanto que a urgência fez com que se mobilizassem e fossem para a avenida gritar debaixo do sol quente. Eles não estão ali só para queimar calorias. Manifestar-se coletivamente é de direito, e, noutros tempos, a depender das razões, pode ser você com uma bandeira na mão e cantando junto na marcha.

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