‘Minha visão é que Dilma não gosta do setor sucroenergético’

Roberto Rodrigues Coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do Lide Agronegócios

iG Minas Gerais | Por Helenice Laguardia |

Lide / Divulgacao
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Ex-ministro da Agricultura no governo Lula, Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV e presidente do Lide Agronegócios, está pronto para assumir a Unica e afirma que, se Dilma for presidente de novo, as coisas vão piorar para o setor.

O senhor agora é presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica)? Ainda não.

Mas vai ser? Como está? Vai ter uma assembleia no dia 20, para eu ser eleito.

A gente vê que o setor sucroenergético está numa crise grande, com produtor com uma safra atrasada, ou seja, com dívida. O que o senhor acha que é possível fazer? Eu quero falar não como representante da Unica, mas sim da Fundação Getulio Vargas (ele é coordenador do Centro de Agronegócio da FGV/EESP). Como resolver é a coisa mais óbvia do mundo. São três questões centrais: a primeira é praticar no Brasil os preços da gasolina que são praticados no mundo inteiro. Em qualquer país do mundo, quando a gasolina sobe de preço para o comprador, o consumidor paga; quando baixa, paga menos. Aqui não pode, porque tem inflação. Então o que o governo faz: obriga a Petrobras a comprar a gasolina por um preço x e vende por um preço x - delta x. Quebrou a Petrobras, a 12ª do mundo hoje é a 120ª, perdeu muito.

E como fica a Petrobras?

Mas a Petrobras é uma empresa pública, quem paga é o povo. Então, ou é o bolso da inflação, ou é o bolso da Petrobras, a calça é a mesma, então é um negócio que não tem explicação.

Essa situação está no limite? Assim como o etanol só é competitivo até 70% do preço da gasolina, e como no produto agrícola os custos sobem e a mão de obra, a certa altura, bate na tampa da panela, o mesmo assunto, que é o combustível, é tratado com dois pesos e duas medidas, inviabilizando o processo.

O que é preciso fazer, então, para o etanol voltar a ter espaço novamente? A primeira coisa é praticar o preço equilibrado da gasolina e do etanol.Outra coisa é resolver a questão tributária, que, por sua vez, tem três capítulos: o primeiro é a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), que é uma tributação sobre a gasolina e que deixava o etanol competitivo. Aumentaram o preço da gasolina, mas tiraram a Cide, isso é artificial.

O ICMS também varia de Estado para Estado em relação ao etanol, não é? A segunda coisa é que cada Estado tem um ICMS (Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual, Intermunicipal e de Comunicação) sobre o etanol. Em São Paulo é de 12%, em Minas Gerais é de 19%. Então, tem que haver uma regulação, uma harmonização desse processo.

E o terceiro capítulo da questão tributária no setor? A terceira coisa é o PIS/Cofins, que tem que ser decidido. Então a questão tributária tem três capítulos que têm que ser olhados.

São três assuntos difíceis, porque tudo depende do governo, não é? Tudo depende do governo. O primeiro é o equilíbrio da gasolina, o segundo é resolver o problema tributário, e o terceiro é um tema mais complicado, mas é o tema do financeiro. O setor está numa merda tãogrande, que tem que haver um saneamento financeiro.

Como resolver esse modelo, então? Tem gente que está inadimplente há um ano, que não paga o fornecedor há um ano, então tem que haver um projeto diferente. O dinheiro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), e existe muito dinheiro do BNDES, mas só pega quem não precisa. É um modelo que não funciona. Esse sistema financeiro tem que ser mais aberto.

Seria possível ser mais fácil também o conseguir o financiamento e ser menos burocrático? Todo mundo comenta que vai tentar financiamento nesses bancos de fomento e não sai.A burocracia do BNDES é tamanha que eles acabam tendo prejuízo. Está concentrando num governo que é social.

Além dessa questão, o que mais o BNDES poderia fazer? Fora isso, é muito problema. Nunca fizeram carro a álcool, motor a álcool. Tem que haver investimento da indústria automobilística no motor a álcool, tem que ter investimento em tecnologia, e isso custa dinheiro. O BNDES colocou um dinheiro agora que vai ajudar nisso aí, mas é pouco dinheiro, tem que ter muito mais. Tem que decidir quem cuida da logística, quem vai ser o dono do tubulão que vai para Santos.

O setor se sente abandonado pelo governo? O governo me irrita tanto nisso. Convenci o Lula (Roberto Rodrigues foi ministro da Agricultura no governo Lula) facilmente. O Lula saiu vendendo álcool pelo mundo, eu com ele, com uma série de decisões, o setor explodiu, inclusive com o carro flex que veio. E depois vem alguém do mesmo partido e não quer mais. O que eu dizia para o Lula era o seguinte: energia é a base do mundo contemporâneo, ninguém faz nada sem energia. Você não pode planejar o futuro do planeta sem um fóssil que vai acabar e que é ambientalmente degradável. O negócio da água e da energia... Comida qualquer país produz. Água e energia, não.

E o Brasil tem vantagem? Água e energia é uma relação de três fatores: terra, planta e sol o ano inteiro. Quem é que tem sol o ano inteiro? Países tropicais. América Latina, África, a Ásia mais pobre. Os países mais pobres do mundo, que são os tropicais, vão produzir a mais importante commodity nesse sentido.Ou seja, o governo fez uma opção pelo combustível fóssil.

Então, a tarefa vai ficar com os países tropicais? Os países tropicais vão produzir a energia limpa do século XXI, e o Brasil vai liderar tudo isso. Então, eu disse ao Lula: eu não quero exportar álcool, eu quero exportar usina, cana-de-açúcar, agrônomo, engenheiro químico, know-how, que é o que vale dinheiro. Então, o negócio é convencer o mundo a plantar cana-de-açúcar e comprar de nós a informação. O Brasil vai enriquecer, e o Lula comprou esse pensamento. O Brasil vai ser líder mundial na mudança geopolítica, os pobres vão produzir energia. É outra civilização.

E o que foi feito, então, nessa época? Então, o Lula convenceu Bunge, ADM, Tereos, as petroleiras, BP, Petrobras a entrarem nisso. Porque esse negócio não é do Brasil, édo mundo, vamos replicar isso no mundo, claro. Você acha que a Bunge veio aqui fazer álcool por causa dos carros brasileiros? Não, ela estava aprendendo para replicar no mundo inteiro, é multinacional, não veio aqui para fabricar para carrinho brasileiro. A Dilma veio e não teve mais, murchou.

Então essas empresas vão saindo, não é? Vão embora, não vendem, porque ninguém compra.

E para elas voltarem é mais difícil? Nunca mais.

É uma coisa muito complicada para ter uma solução? A minha visão é que a Dilma não gosta do setor. Mas o presidente da República não tem o direito de não conversar com o setor, pode não gostar, mas conversa, ouve, entende. Eu acho que esse negócio é preconceito. E preconceito é filho da ignorância com radicalismo ideológico, aí não tem conserto. Aliás, tem, porque ignorância não é doença, basta a pessoa querer. É uma coisa meio inacessível.

Com as eleições, no próximo governo, o senhor vê alguma solução para o setor sucroenergético no Brasil? Bom, se for a Dilma de novo, vai piorar, porque a indústria de base alcooleira perdeu nos últimos cinco anos 50 mil empregos.

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