‘Política atrapalha os negócios’

Mesmo milionários, parlamentares mineiros afirmam que vida pública os impede de ganhar mais

iG Minas Gerais | Tâmara Teixeira |

Sem dinheiro. Para Newtão, não é fácil conciliar atividades
[CREDITO]gustavo lima - 28.4.2014
Sem dinheiro. Para Newtão, não é fácil conciliar atividades

O ditado diz que é o olho do dono que engorda o gado. No mundo dos negócios, quem é dono sabe que o dito popular tem que ser cumprido à risca para que se tenha sucesso. Alguns políticos, no entanto, esbanjam destreza ao conciliar as finanças com a vida pública. O TEMPO conversou com parlamentares mineiros mais ricos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para saber como eles equilibram a “vida dupla”.

A explicação é quase sempre a mesma: todos garantem que são ativos como parlamentares, e, mesmo com os números confirmando fortunas cada vez maiores, o discurso da maioria é o de que, em função do cargo público, o lado empresarial acaba sacrificado.

“Não é fácil fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Um sempre atrapalha o outro”, explica Newton Cardoso, deputado federal pelo PMDB e dono da maior fortuna entre os políticos mineiros: R$ 77 milhões. Ele conta como faz para frequentar a Câmara e administrar os negócios. “De terça a quinta fico em Brasília. Na segunda, na quinta e na sexta trabalho em Belo Horizonte. É apertado porque tenho muitos empregados e negócios para administrar. Tenho pelo menos dez funcionários de confiança que me ajudam a tocar as empresas”, conta Newtão, como é conhecido.

Dono de fazendas, o peemedebista, que já foi governador de Minas e prefeito de Contagem, garante dar conta do recado quando o assunto é cuidar do interesse do eleitor, em Brasília. “Adoro uma comissão. Vou a todas as votações”.

No entanto, não é o que mostra uma pesquisa do site Congresso em Foco, que colocou Newtão em terceiro lugar no ranking dos mais ausentes no plenário da Câmara Federal em 2013. O deputado faltou a mais da metade das sessões. Dos 113 dias em que deveria ter comparecido à Câmara, faltou em 60 e marcou presença em 53.

Ausente também tem sido o deputado estadual Bráulio Braz (PTB). Dono do quarto maior patrimônio declarado à Justiça, com R$ 9,9 milhões, Braz não pôde falar à reportagem sobre como lida com a rotina de parlamentar e empreendedor. Em viagem para a Alemanha desde o último dia 8, o petebista, segundo sua assessoria, costuma ficar incomunicável quando deixa o país. “Ele é dono de concessionárias e viaja muito por conta dos negócios. Quando está fora, não atende telefone nem lê e-mail”, justificou um funcionário.

Colega de partido de Braz na Assembleia, Dilzon Melo diz que é justamente a política que o impede de prosperar mais nos negócios. Só continua na vida pública, segundo ele, “pelo prazer de ajudar as pessoas”. Grande produtor de café com posses avaliadas em R$ 6,3 milhões, Melo é dono de 70 bens, entre loteamentos e haras. “Não tenho problemas porque tenho um administrador em cada área. Acompanho tudo pela internet, à distância. Não tem conflito. Eu me mantenho na política para ajudar as pessoas”.

O também deputado estadual Jayro Lessa (PTB) diz que faz mágica para administrar seus R$ 40 milhões e a agenda na Assembleia. “É muito difícil. Às vezes coincidem as agendas e os horários. Entrei na política porque achei que podia contribuir nessa área tributária”, afirma. Segundo Lessa, muitas vezes ele é obrigado a escolher entre uma das funções. “Aí, sacrifico a empresa. Lá tenho a quem delegar, na Assembleia, não”.

Com a marca de terceiro mais ausente na bancada mineira, o deputado federal Lael Varella (DEM) reconhece: “Não combina ser político e empresário”. Sem qualquer projeto apresentado ao longo de 2013, Varella diz que repassou a administração dos negócios aos filhos. Tudo em nome da política. “Não vou à empresa. Só acompanho os balanços. Não dá para conciliar com a política, que é minha prioridade”. Caberá ao herdeiro, agora, a tarefa de engordar o patrimônio de R$ 10,3 milhões do pai. E, ao deputado, mais tempo para se dedicar à sua verdadeira prioridade.

“Forbes”

Os mais ricos, segundo a revista “Forbes”:

1º - Senador suplente Lirio Parisotto (PMDB-AM) - US$ 1,9 bilhão

2º - Senador Blairo Maggi (PR-MT) - US$ 960 milhões

3º - Deputado federal Marcelo Beltrão de Almeida (PMDB-PR) - US$ 200 milhões

4º - Prefeito de Lucas do Rio Verde, Otaviano Pivetta (PDT-MT) - US$ 100 milhões

5º - Deputado Paulo Maluf (PP-SP) - US$ 33 milhões

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