Cicatrizes modernas de velhas raízes do mangue Nono álbum da banda chega às lojas 20 anos após o histórico “Da Lama Ao Caos” “Nação Zumbi”

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Gravação. Nação Zumbi voltou ao estúdio nos últimos dois ano para gravar 11 faixas do novo disco
vitor salerno/divulgação
Gravação. Nação Zumbi voltou ao estúdio nos últimos dois ano para gravar 11 faixas do novo disco

O vocalista da Nação Zumbi Jorge DuPeixe diz que não gosta de “dichavar” letras, mas admite que existem memórias na música “Cicatriz”, que abre o mais recente álbum homônimo da banda. “É sobre feridas que temos, claro. Mas não fiz essa música pensando no Chico (Science), como especulam. Deixo uma interpretação livre. Digo que não existe memória musical neste disco, só que memória de amigo já é outra coisa”, diz.

Entre recordações sinuosas que vêm à tona justamente 20 anos após o lançamento do histórico “Da Lama Ao Caos” (1994), com Chico Science apresentando ao mundo ciranda, maracatu, frevo e o diabo a quatro misturado com maestria, o recém-lançado “Nação Zumbi” chega às lojas com letras cuidadosamente navalhadas e harmonias detalhistas que fazem pulsar a veia do manguebeat.

Lançado pela dupla Slap/Natura Musical, “Nação Zumbi” carrega o mesmo nome do álbum de 2002 (“é algo meio Led Zeppelin mesmo”, diz Du Peixe), e representa o primeiro álbum de inéditas da banda após sete anos de hiato. Nesse meio tempo, os integrantes se dividiram entre a gravação do disco “Ao Vivo em Recife” e o projeto paralelo “Los Sebosos Postizos interpretam Jorge Ben Jorge”, ambos em 2012. Além disso, Lúcio Maia (guitarra), Dengue (baixo) e Pupilo (bateria) acompanharam Marisa Monte na turnê do disco “Verdade, Uma Ilusão”, nos últimos dois anos.

Com produção de Kassin e Berna Ceppas, o álbum apresenta inclusive a relação íntima da banda com Marisa Monte, que canta em “A Melhor Hora da Praia” – uma ciranda suave que é candidata fácil a hit para tocar nas rádios (“fui no camarim de um show dela fazer o convite e ela topou na hora, dizendo que amava ciranda”, conta DuPeixe).

Além de não ficarem restritas a influências de funk, ciranda, maracatu, reggae etc, as 11 faixas do álbum se mostram densas por serem repletas de sons eletrônicos minimalistas, samplers, teclados, batuques e até cavaquinho e bandolim (“a gente pensou em colocar um adesivo na capa escrito ‘ouça em alto volume’, porque tem tantos detalhes sonoros aí que não podem ser ouvidos por fones de ouvido ruins”, brinca Du Peixe).

Mesmo sendo trabalho árduo superar o antecessor “Fome de Tudo” (2007), o disco novo da Nação Zumbi é sustentado por letras bem trabalhadas por Du Peixe, que revisou (“riscando e rabiscando sem dó”) as poesias durante dois anos, e regravou várias vezes vocais de canções como a bonita balada “Um Sonho” (“Estão comendo o mundo pelas beiradas / Roendo tudo / Quase não sobra nada / Respirei fundo achando que ainda começava um grito no escuro”), e “Cuidado”, que começa com uma sirene policial para avisar que “Veias, coração e desejos negados / Às vezes encontram a contra-mão / Tome cuidado com o seu cuidado”.

Com inovações sonoras mais brandas do que em outros trabalhos, “Nação Zumbi” traz o aguardado retorno de uma mistura que tem raiz pernambucana firmada no mangue há vinte anos, mas ainda consegue intrigar de forma particular e contemporânea ao expor novas contradições para dialogar com o mundo. Um dos principais recados do disco está em “Novas Auroras”, que harmoniza passado, presente e futuro: “Relógios não esperam por ninguém / Ontem você quis o amanhã / Hoje você quer o depois”.

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