Desafio na cultura

iG Minas Gerais |

Hélvio
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O número de espaços culturais vem aumentando em Belo Horizonte, a produção artística é intensa, mas a frequência de público a esses locais não segue o mesmo ritmo. Nas últimas semanas fui a três espetáculos de música na cidade, um deles internacional: dois estavam com menos da metade de ocupação, outro tinha metade da casa ocupada. Esses exemplos me ocorreram ao ler números da pesquisa divulgada na semana passada em Belo Horizonte sobre os hábitos culturais dos brasileiros. Ou, o mais certo, a falta de hábitos culturais dos brasileiros, pois os dados mostram o desinteresse da maior parte dos entrevistados pelas atividades culturais. A pesquisa foi realizada pelo Sesc e pela Fundação Perseu Abramo. Foram entrevistadas, entre agosto e setembro do ano passado, 2.400 pessoas em 139 municípios de 25 Estados, brasileiros maiores de 16 anos que moram em áreas urbanas. Se as pesquisas eleitorais apontam prognósticos confiáveis, com pequena margem de erro, num universo de cerca de 500 eleitores, o resultado de 2.400 entrevistas não pode ser desprezado. Os dados de desinteresse pela cultura são o que, grosso modo, observamos há décadas no Brasil. A questão é que, com a expansão das atividades culturais pelo país, o maior acesso da população à educação e à informação, esperava-se pelo menos uma melhora no quadro, mas não é o que parece. Por exemplo, 61% dos entrevistados nunca viram uma peça de teatro; 58% não leram nenhum livro nos últimos seis meses e os que leram possuem uma média de apenas 1,2 livro lido nesse período; 75% nunca foram a um espetáculo de dança; 83% nunca assistiram a um concerto de música clássica; 26% afirmaram que não gostam de exposições artísticas e outros 26% não sabem ou nunca foram a uma. O assunto foi divulgado neste caderno, Magazine, desde o anúncio nacional da pesquisa, há cerca de um mês, e também na semana passada, quando o Sesc realizou em Belo Horizonte um seminário para apresentação dos resultados e reflexão sobre eles. Não pude comparecer ao seminário, portanto não soube das análises e sugestões apresentadas, mas retomo aqui o tema pela oportunidade de entrar em mais detalhes e porque a questão está colocada como um desafio a ser encarado no sentido de ampliar o interesse do cidadão pela cultura. Há uma premissa básica de que surge na infância, no incentivo familiar ou da escola, a oportunidade de aguçar o interesse pela cultura, fonte crucial na formação da personalidade da pessoa e, mais tarde, de sua consciência cidadã e política. O desafio, hoje, no entanto, é atrair esse brasileiro já maior de 16 anos para a vida cultural. Esse que ainda tem na televisão sua principal atividade de entretenimento, sendo que 62% assistem aos canais abertos, e a maioria, 54%, acompanha principalmente as novelas. Não se faz cultura apenas com espaços culturais, e bons exemplos da arte que vai para a rua podem ser citados em Belo Horizonte, seja por meio de instituições públicas, como o FIT-BH, que a prefeitura está levando a diversos bairros da cidade, os museus na praça da Liberdade; ou instituições privadas, que levam atrações a praças, o próprio Sesc com sua biblioteca itinerante; e ainda por iniciativa dos próprios artistas, como o Duelo de MCs. Falta agora identificar qual o fosso a ser superado para que um público maior possa ter interesse por essa produção cultural. A pesquisa dá os indicadores da necessidade de uma maior aproximação entre quem faz arte e quem poderia e deveria ter acesso a ela, mas que ainda não se sente instigado a isso. Os dados da pesquisa estão disponíveis no endereço eletrônico http://www.sesc.com.br/portal/site/publicosdecultura/inicio/. .

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