Letras regionais que transcendem padrões fabricados

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Memória. Chico Science, em um de seus últimos shows, em 1997
Sony/Divulgação
Memória. Chico Science, em um de seus últimos shows, em 1997

Em 1994, enquanto as rádios brasileiras e a MTV nacional explodiam sucessos como Gabriel O Pensador criticando playboys filhinhos de papai, Planet Hemp pregando o “Legalize Já”, e o Skank lançando o álbum “Calango” com fortes influências de reggae que grudariam no ouvido de nove entre dez brasileiros, Chico Science e a Nação Zumbi buscavam letras que retratassem um cenário que pouca gente dava importância: as mazelas de Recife que se estendiam a boa parte da realidade brasileira, reinventadas com a energia de tambores e poesias sobre um país caótico.

As 14 faixas que compõe “Da Lama Ao Caos” (1994) foram escritas por Chico Science, com exceção de duas delas: “Computadores Fazem Arte”, de Fred Zero Quatro, e a instrumental “Lixo do Mangue”, de Lúcio Maia. O empresário da banda na época, Paulo André Pires, conta que boa parte das composições foram feitas sob influência das rodas de conversa e cerveja gelada que se instalavam nos bares da Alta Olinda, na região metropolitana de Recife. “A gente ia tomar cerveja e paquerar e lá rolavam os papos. O Chico sabia muito bem o que queria. Ele dizia que as ideias eram nossas e gravadora nenhuma ia tirar isso da gente”, revela.

Em plena era pré-moderna, onde computadores não eram populares, “Da Lama Ao Caos” constrói um universo de antenas ligadas na lama, computadores artistas comandados por caranguejos, um capitalismo que “urubuzava” por mais pobreza: tudo relatado em letras que abusavam de termos nordestinos, como caritó (mulher que passa dos 25 anos sem casar), aratu (tipo de caranguejo) e carraspana (bebedeira em excesso).

Para o crítico musical Mauro Ferreira, Chico Science parecia prever que era necessário inverter a ordem das coisas. “Naquela época, o rock pautava tudo, as bandas até podiam aceitar alguma influência regional, mas com o rock inglês na frente. Mas a Nação Zumbi fez o processo inverso, e as letras são a parte mais clara disso, abusando do regionalismo para falar de problemas que eles sentiam na pele”, diz.

A primeira faixa do álbum, “Monólogo ao Pé do Ouvido”, deixa isso claro quando Chico Science canta: “Modernizar o passado / É uma evolução musical / Cadê as notas que estavam aqui / Não preciso delas”. Em “A Cidade”, o líder da Nação Zumbi compara a história da exploração holandesa no Nordeste e a construção de um espaço industrializado, mas decadente, após a libertação: “O sol nasce e ilumina as pedras evoluídas / Que cresceram com a força de pedreiros suicidas / Cavaleiros circulam vigiando as pessoas / Não importa se são ruins, nem importa se são boas”.

Na parceria com Fred Zero Quatro, Chico Science volta a expor a dualidade entre o atraso e a evolução, retratando o mangue, principal fonte social e econômica de Recife, como um lugar abandonado, onde o trabalhador sofre em “Rios, Pontes e Overdrives”: “E a lama come mocambo e no mocambo tem molambo / E o molambo já voou, caiu lá no calçamento bem no sol do meio-dia / O carro passou por cima e o molambo ficou lá”. Até mesmo para falar de amor, Chico Science transgrediu o padrão. Em “Risoflora”, ele usa o caranguejo – símbolo do manguebeat – para fazer uma declaração excêntrica: “Eu sou um caranguejo e estou de andada (...) / E quando estou contigo eu quero gostar (...) / E aí deixar de lado como a flor que eu tinha na mão”.

“Éramos livres. Reunimos ideias de uma vida toda que até então ninguém reparava muito e, de repente, o mundo inteiro nos ouviu”, diz o guitarrista Lúcio Maia.

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