20 anos de antenas na lama

Célebre álbum de estreia de Chico Science e Nação Zumbi faz duas décadas de reinvenção da música brasileira

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Mangueboys. Nação Zumbi em foto de 1994, com Chico Science à frente do grupo
Sony/Divulgação
Mangueboys. Nação Zumbi em foto de 1994, com Chico Science à frente do grupo

“A gente não tinha nenhum equipamento e fomos para o Rio gravar ideias da adolescência. Não caiu a ficha na hora, só sacamos que tínhamos feito uma obra de arte muito depois”. Essa é a primeira lembrança que vem à cabeça do guitarrista Lúcio Maia quando pensa no dia 9 de abril de 1994, data em que o histórico álbum “Da Lama ao Caos” chegou às lojas brasileiras. Com um Chico Science ansioso e cheio de ideias transgressoras aos 28 anos, o primeiro álbum da Nação Zumbi foi mal aceito pelo mercado e recusado pelas rádios tupiniquins no ano de estreia, mas um ano depois representaria a maior transformação da música brasileira após a Tropicália de Gil e Caetano, que teve seu auge em 1968.

A história de “Da Lama ao Caos” está intimamente ligada a uma Recife largada no início da década de 90 – onde reinava a pobreza latente nas ruas dominadas por cafetões e prostitutas, o cenário cultural seguia em declínio e a cidade ainda carregava o título de quarto pior município do país para se morar. Foi nesse cenário que Francisco de Assis França, o Chico Science, e Fred Zero Quatro, vocalista do Mundo Livre S/A, energizaram as cores de Pernambuco ao inventaram um novo conceito musical e social.

Entre 1992 e 1993, enquanto Chico Science fazia shows com a Nação Zumbi começando a juntar maracatu, ciranda, funk, dub, tambores de alfaia a guitarras elétricas, nascia o conceito de manguebeat no texto-manifesto “Caranguejos com Cérebro”, distribuído em 1992 à imprensa brasileira. “Resumi no texto todo o papo que já rolava na cena de Recife. Fiz um retalho do que eram os chamado mangueboys, gente interessada em quadrinhos, TV interativa, maracatu e ciranda, Bezerra da Silva, hip hop, música de rua, sexo não-virtual, conflitos étnicos etc. E isso era muito o que o Chico debatia”, diz Fred. Com o símbolo de uma antena enfiada na lama – que faz alusão aos caranguejos do mangue que estavam antenados ao mundo –, o manifesto viraria uma referência de ideologia manguebeat ao sair impresso no encarte de “Da Lama Ao Caos”, em 1994.

GRAVAÇÕES. O empresário da Nação Zumbi na época, Paulo André Pires, lembra que apesar de rodar por algumas cidades como Belo Horizonte e Curitiba, Chico Science e Nação Zumbi só receberam o convite para gravar o disco com a Sony após a banda se apresentar para produtores paulistas da loja C&A, que gravava um comercial em Recife, em 1993. “Depois do show, Chico me procurou dizendo que a Sony havia adiantado R$ 40 mil para gravar o disco deles, e eles precisavam de um empresário para ontem. É claro que eu topei na hora”, conta.

Em setembro de 1993, Alexandre Dengue (baixo), Canhoto (caixa), Chico Science (voz), Gilmar Bolla 8 e Gira (alfaia), Jorge Du Peixe (alfaia e tonel), Lúcio Maia (guitarra) e Toca Ogam (percussão e efeitos) desembarcaram no Rio de Janeiro para as gravações no estúdio Nas Nuvens, que era comandado por Liminha e Gilberto Gil, no Jardim Botânico. “O Chico queria o produtor Arto Lindsey, que conhecia a música pernambucana e havia trabalhado com David Byrne, Caetano e Marisa Monte. Mas a gente não podia pagar em dólar”, diz Du Peixe, atual vocalista da banda.

O produtor Liminha, que assumiu o trabalho de lapidar uma banda que não usava bateria, se assustou com os sons saídos de alfaias e tambores. “Foi um custo para tirar sons graves dali. A falta da bateria era loucura e genialidade ao mesmo tempo”, se recorda.

O guitarrista Lúcio Maia lembra ainda que foi dentro do estúdio que os integrantes da banda compraram os primeiros instrumentos de peso – apesar de fazer shows há dois anos. A falta de experiência em estúdio, porém, fez os integrantes passarem mais de 12 horas diariamente gravando. “Comprei uma Telecaster com um som surreal que eu nunca vou esquecer, também investimos em tambores novos. Contratamos até uma cozinheira para servir almoço lá no estúdio, porque ficávamos o dia inteiro trabalhando as músicas”.

Ao chegar às lojas, porém, “Da Lama Ao Caos” foi rejeitado pelas rádios pernambucanas e do eixo Rio-São Paulo, como a Sempre Nova, 89 FM e Brasil 2000. “No Sudeste, diziam que era muito regional. No Nordeste, era rock n’ roll demais. Então resolvi levar o disco para fora do país”, diz Paulo Pires. Enquanto bandas brasileiras da época tentavam soar como grupos ingleses e norte-americanos de rock, a Nação Zumbi zarpava para uma turnê de 54 dias pela Europa, Japão e EUA, entre junho e agosto de 1995, para apresentar o regionalismo recifense de guitarras ao mundo. “A Sony não queria a turnê lá fora porque teve medo de não dar público. Aí tocamos com Beastie Boys, Chemichal Brothers e Daft Punk. Saímos no ‘New York Times’ e o pessoal no Brasil pirou”, lembra Paulo.

Sem conseguir vender nem 10 mil cópias em 1994, “Da Lama Ao Caos” ganhou os holofotes rapidamente após a turnê no exterior, provando que o rock podia ser alimentado pelo maracatu e que agora ecoava um novo pensamento crítico além dos mangues recifenses. “Hoje eu sei que este disco é uma obra de arte. Ele fala por si só. Analisa-lo devia ser apenas o exercício de ouvi-lo, sem mais”, atesta Lúcio Maia.

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