Prédio de 63 anos que abrigou hotel mantém clima do interior

Vizinhos com portas abertas e cafezinho novo a qualquer hora sobrevivem no centro de BH

iG Minas Gerais | pedro vaz perez |


Zolma exibe antigo recorte de revista sobre o Edifício Itatiaia
Lincon Zarbietti / O Tempo
Zolma exibe antigo recorte de revista sobre o Edifício Itatiaia

Mesmo inserido no movimentado centro da capital, durante décadas o Edifício Itatiaia – uma das primeiras construções de grande porte da cidade – cultiva clima interiorano, que ainda hoje sobrevive em parte de seus 48 apartamentos residenciais. Há um pouco de tudo que caracteriza as cidades menores: namoros e casamentos entre famílias vizinhas, portas sempre abertas aos conhecidos, café quente a qualquer hora do dia e até desentendimento entre dois grupos em relação aos rumos do condomínio. Ofuscado pela ação do tempo e por falhas na conservação, o prédio erguido em 1951 e tombado como patrimônio cultural em 2004 esconde, por trás de fachada com pintura e janelas descascadas, rebocos caídos e tijolos expostos, histórias de famílias inteiras – que ali passaram a maior parte de suas vidas, se misturando ao desenvolvimento da cidade.

Uma parte do prédio – inicialmente erguido para receber o Itatiaia Hotel, que por vários anos foi um dos melhores da cidade – também abrigou espaçosos apartamentos residenciais. Moradora do edifício há 45 anos, a artesã Zolma Leite, 78, tem lembranças vívidas dos tempos de glória. “O letreiro era iluminado, e dois mensageiros guardavam a porta principal. Um belo toldo verde, que ia até a rua, abrigava os que chegavam de carro. Hoje, a realidade é bem diferente”, observa a artesã, saudosa.

Familiar. Iolanda Nascimento, 94, criou filhos e netos em seu apartamento durante os quase 40 anos em que mora no edifício. Agora, com a família já na quarta geração, o grande diferencial do prédio continua sendo a vista privilegiada que oferece, segundo ela. “Gosto de acordar e ficar um tempo olhando a rua. Ainda hoje consigo ser surpreendida com alguma novidade na paisagem”, afirma. Da janela de seu quarto, ela avista a praça da Estação, a Serraria Souza Pinto, o viaduto Santa Tereza e o Parque Municipal.

Afetividade. Filho de Iolanda, Giovanni Nascimento, 55, morou com a mãe por toda a vida e, depois de adulto, comprou um apartamento no andar de baixo. “Como os corredores são grandes, abrigavam a turma de mais de 20 meninos. Era quase como brincar na rua”, relembra. A vizinha Zolma, que o viu crescer, se lembra bem do grupo. “Era uma turminha bagunceira”, diz.

O prédio foi construído em forma de “U”, entre três importantes vias urbanas, com corredores internos similares a extensas sacadas abertas, uma espécie de varanda comunitária, que parece ter potencializado as relações afetivas. Filha de Giovanni e neta de Iolanda, Giselle Nascimento, 34, aproveitou bastante o espaço. “Quando estávamos maiores, as brincadeiras deram lugar ao happy hour da turma. Não precisava de bar”, conta. Ela também guarda boas lembranças da infância. “Muitos já se foram, mas as memórias permanecem”.

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