“Fui com a cara e a coragem”

Última mineira viva a servir na FEB, tenente Carlota Mello conta suas experiências na guerra

iG Minas Gerais | Flávia Carneiro |

Força. Tenente Carlota Mello ao lado da foto com a farda
LEO FONTES / O TEMPO
Força. Tenente Carlota Mello ao lado da foto com a farda

“Cuidava de soldados sem perna, braço, olho e, muitas vezes, sem memória”. “Havia mina para todo lado. Uma chegou a explodir bem próximo ao alojamento onde estava”. “Fui com a cara e a coragem, tive a ousadia para fazer o que nenhuma mulher tinha feito, nem mesmo os homens tinham feito”. As frases são fragmentos da memória da tenente Carlota Mello, uma das 73 mulheres que serviram na Europa durante a Segunda Guerra Mundial pela Força Expedicionária Brasileira (FEB). Hoje com 99 anos – completa um século em 12 de outubro –, Carlota é a última mineira viva a participar da campanha brasileira na Itália.

Natural de Salinas (Norte de Minas) e única mulher entre oito filhos, Carlota desde cedo queria um destino diferente do de suas primas. “Não desejava, de jeito nenhum, casar e ter uma penca de filhos. Por isso, decidi vir para Belo Horizonte, morar com meu irmão mais velho e fazer o curso de normalista, uma das únicas funções que uma mulher poderia assumir naquela época”, conta.

Quando se formou, não satisfeita com a vida de professora, resolveu fazer o curso de enfermagem na Cruz Vermelha. Inquieta, viu uma propaganda do Exército Brasileiro convocando interessados em fazer curso de socorrista para atuar na Europa.

“Não pensei duas vezes e resolvi me inscrever. Confesso que fiquei apavorada com o módulo prático. Tínhamos que correr com um tronco nos ombros, rastejar na lama, fazer tudo que um soldado faz. Das 16 moças que foram para esse curso no Rio de Janeiro, apenas quatro foram aprovadas para ir à guerra”, diz. “Fui com a cara e coragem. Tive ousadia suficiente para fazer o que nenhuma mulher tinha feito, nem mesmo os homens tinham feito”, completa.

Carlota foi designada para atuar no Hospital do 5º Exército Americano, em Nápoles, na Itália. Lá, a enfermeira permaneceu por 11 meses, mas a adaptação foi difícil. “Cheguei à Europa em 1944, numa época em que a neve cobria os joelhos. Morei numa barraca de lona, o frio fazia doerem os ossos. Comia apenas derivados de trigo e frutas. A carne era de cavalo. No início achei estranho, mas depois me acostumei. Carne de frango só aparecia uma vez por mês”, conta. “Cuidava de soldados sem perna, braço, olho, e muitas vezes, sem memória”, lembra.

Com o fim da Segunda Guerra, em maio de 1945, a tenente Carlota demorou mais dois meses para retornar ao Brasil. “Algumas regiões da Europa foram rapidamente evacuadas, mas não foi o caso de Nápoles. A batalha tinha acabado no campo, mas os hospitais continuavam a receber feridos. Quando cheguei a Belo Horizonte, fiquei sabendo que meu irmão mais velho tinha morrido. Foi muito triste”, conta emocionada.

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