Em defesa da nação

iG Minas Gerais |

Nos últimos meses, o maior esforço empreendido pelos nobres senadores da República dilmista, sob coordenação do presidente da Casa, Renan Calheiros, se deu na tentativa de evitar a investigação que colocaria à luz os desmandos na maior empresa do país, a estatal Petrobras. Os senadores foram vencidos por uma avassaladora onda de denúncias. Abriu-se a CPI, e os esforços de Renan e cia. se concentraram em reduzi-la à ópera bufa que levanta indignação. Instituição antigamente respeitada, o Senado virou uma piada de mau gosto, deixando aos brasileiros (que pensam) a sensação de uma tremenda amargura. A petroleira, na realidade, sofreu um desmedido aparelhamento político. Deixou de ser um bem do Estado para se transformar em pastagem de engorda dos partidos governistas. Lá, mais que extrair petróleo a baixo custo, o esforço das diretorias invasoras se concentra em saquear o patrimônio. Pelas denúncias que vazam, lá dentro nada mais se salva. A Petrobras, no mais recente relatório da Merril Lynch, consta como a “empresa mais endividada do mundo”, seus balanços são fantasias que não iludem mais, ao contrário fazem dela uma empresa “a risco”. A maior fatia dos domínios da empresa obviamente coube ao PT, mas outros partidos, como o PMDB de Renan Calheiros, conseguiram garantir feudos. Quer dizer, diretorias que manejam muitos bilhões de dólares por ano. O que sobe na estatal são custos, e o que declina é a produção. Disso a queda de valor das ações e as perdas para os acionistas, ou seja, a União, os fundos de pensão e ainda trabalhadores que trocaram seu FGTS por ações da estatal. O monopólio e os privilégios que detém a Petrobras, mais que atender o interesse da nação, atendem as negociatas e os abusos negociais que se transformam insistentemente em desvios bilionários, em obras superfaturadas, em compras e contratos, severamente lesivos ao interesse da empresa. Sempre que se aproxima uma eleição, o presidente da República de turno anuncia do alto de uma plataforma ou de palanque descobertas mirabolantes. Pinta-se a irrealidade para construção de expectativas milagrosas e fantásticas. A tradição mostra, infelizmente, que, logo depois de as urnas se pronunciarem, tudo, como uma efêmera barra de gelo, derrete-se aos raios do sol. As trombetas do Planalto se calam, encerra-se a turnê de bravatas, enquanto no eleitor a memória se apaga. À Petrobras seria suficiente garantir o funcionamento como empresa competitiva para ela exercer seu incalculável papel social. Geraria lucro, pagaria 40% de Imposto de Renda ao erário federal, e ainda 50% dos dividendos provenientes do lucro líquido entrariam exatamente para o mesmo erário, isso com benfazejos reflexos na economia popular. Trocando em moedas, uma Petrobras “real”, sem intervencionismo, daria recursos para investir nas áreas de maior demanda, como saúde, segurança, infraestrutura. Não precisa, portanto, inventar outras fórmulas que alardeiam mudanças em favor da nação vilipendiada. Direta e indiretamente, a Petrobras é do povo brasileiro como um todo. Não se escapa disso. Sejam royalties, sejam dividendos, sejam lucros, o destino é o mesmo, é o povo brasileiro. As gincanas anunciadas geram privilégios e facilitam assaltos. São relativamente recentes as patéticas farsas eleitoreiras do “biodiesel de mamona”, que deu em nada – como já ensinavam os técnicos cientistas do setor com uma caterva de explicações. Depois disso, foi a vez do H-bio, combustível de base vegetal a se misturar no diesel. Na prática combustível ficcional, outra barra de gelo que desapareceu. Finalmente chegou-se ao show do “pré-sal”, a fábula que arrebentou Eike Batista e que, desde os primeiros poços abertos, confirma invariavelmente uma quebra das avaliações mirabolantes. Tanto é que a Petrobras registrou grande queda de extração nos últimos dois anos e um aumento significativo de custo de extração. Dessa forma quem vai pagar a dívida? Ninguém até hoje veio explicar o custo de um barril extraído do pré-sal. Alardeia-se que se deu aumento de extração nessas camadas, mas não se diz que a perda nas outras foi maior. E quanto está se gastando? Graça Foster já explicou isso? Os balanços ainda embutem práticas fantasiosas de exportação das plataformas, e isso nem inglês quer ver mais, ficando a Petrobras na condição de “empresa mais endividada do mundo”. Em todas as frentes que se afundam análises de ordem econômica, encontra-se inquietante realidade, como na construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, cujo custo inicial passou de US$ 2,4 bilhões para mais de US$ 20 bilhões, está atrasada em quatro anos e ainda está longe de refinar. O que impressiona na administração da estatal é a incapacidade de fazer previsões, sempre absurdamente distantes da realidade. Disso a Petrobras ficou mais desgastada internacionalmente que o cabrito que berra em vão. Previsão da Petrobras tem consistência internacional paragonável ao Pinóquio de Collodi. O princípio que deve conduzir uma empresa como Petrobras é o mesmo de uma empresa qualquer que atua em favor de clientes e acionistas, nesse caso o povo brasileiro. O assédio que sofre resulta em desvios bilionários. Veja-se só que, na hora de extrair, de vender, de comprar, erra constantemente. Trata-se de um patrimônio nacional, não de partidos, que perde a cada dia valor e abre inquietantes dúvidas. Não dá para acreditar que a maioria do Senado, base governista, esteja à altura de investigar como manda a Constituição. Os sinais de uma farsa para enterrar as apurações ofendem a seriedade de quem observa. Faz crer que não existe interesse em salvaguardar o patrimônio brasileiro, e o que se constata são manobras toscas e velhacas para perpetuar o assalto ao patrimônio da nação. Investigar a fundo os desmandos que ocorrem na Petrobras é no momento um dever que se impõe ao Congresso Nacional para preservar um patrimônio que é severamente ameaçado. Um maior controle efetivo e honesto sobre as operações da Petrobras pode gerar inúmeros bilhões de reais por ano de renda pública, aproveitados em favor da nação.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave